bardo

O Bardo

Sentado numa pedra, à beira do mar, estava o Bardo. Não era um bardo único e diferente dos outros, mas sim daqueles bem comuns; do tipo das roupas surradas das inacabáveis viagens inacabadas, do cabelo comprido e castanho, que esvoaçava e embaraçava pela maresia e dos olhos escuros e receptivos. Ele não era tão belo assim, mas não era feio; tinha um rosto bem normal, apesar de bastante carismático; e certamente ficaria mais apresentável se resolvesse cuidar mais de sua própria aparência. Seu sorriso, porém, era carinhoso e acalentador, tal qual o brilho de seus olhos.

A perícia musical do Bardo não era excepcional, embora suficientemente notável para espantar mesmo aqueles cujos ouvidos e conhecimentos sobre música fossem até um pouco avançados. Contava-se que o Bardo não tinha a música como profissão em verdade, mas sim como passatempo; ele era, na realidade, um artífice das palavras, um contador de estórias e escritor; dizia-se que escolheu isso por duvidar de sua própria capacidade como músico. Entretanto, demonstrava um amor pela sua música visto em cada vez menos indivíduos de sua própria classe; e sem dúvida era talentoso. Aos desentendidos, porém, ele era um artista, daqueles dignos da visão e audição dos grandes. O Bardo sabia que suas habilidades não condiziam sempre com o que os outros criam, mas ele não se preocupava em ficar desmentindo tudo aquilo. Afinal, um elogio retumba forte, mesmo no mais humilde dos corações dos homens. E o Bardo gostava disso, de sentir isso, ainda que fosse um tanto quanto falso. Fútil? Um pouco, talvez, mas provavelmente sejamo-lo todos, ao final das contas. O Bardo nunca produzira nada muito soberbo, nunca tocara para os grandes reis do mundo e seu nome nem era lembrado, mas muitas vezes gostava de se enganar a pensar que sim. Sonhar é uma habilidade para poucos; que esses poucos tirem proveito dela, pois.

O Bardo tinha uma bondade inerente superior à enorme maioria dos indivíduos; o problema é que não poucos sempre se aproveitaram disso. Era de se supor que, por sua natureza, o Bardo daria a vida por muita gente; mas poucos sabiam disso. Pena que poucos, também e decerto, dariam a vida por ele.  Não, não tinha muitos amigos, e os grandes amores que teve foram falsos ou perdidos. Mas não guardava rancor ou arrependimento. Ele era simples. Somente um bardo; não o melhor, não o pior. Apenas um bardo; tolo e sonhador.

Enfim, lá estava o Bardo, sentado numa pedra, à beira do mar, com o crepúsculo já se assomando. Atrás dele subia íngreme um alto desfiladeiro pedregoso, de onde, lá de cima, podia ter-se uma visão lindíssima da costa. Não poucas vezes o Bardo subira até lá para vislumbrar aquela visão e esquecer um pouco a sua própria mediocridade. Lá, permitia-se sonhar e ser grandioso em seus próprios devaneios. Dedilhava emocionalmente uma melodia suave em seu velho alaúde, que apesar de não ser da melhor qualidade, era bastante razoável; o que lhe era permitido conseguir com a renda que tinha. De olhos fechados cantarolava e tocava algo que lembrava um réquiem, embora de maneira rapsódica. Um improviso mórbido e melancólico por um coração morto, talvez.

A música do Bardo povoava os ventos do mar; gaivotas que rodeavam a praia deserta, em busca de alimento, eram atraídas pela melodia. Apesar de tudo, o Bardo parecia capaz de encantar alguém, ainda. Aquela música, em conjunção com o ritmo das ondas tranqüilas, parecia dar àquele lugar uma aura mágica; mesmo os pássaros pareciam grasnar mais baixo em respeito ao Bardo e à sua música, e a maresia soprava calma e reconfortante.

E foi então que, de repente, uma pedra de um punho de tamanho caiu da direção do alto do desfiladeiro, bem na cabeça do Bardo; o peso da pedra e o impacto o zonzearam, e ele caiu na água rasa e desmaiou; a música parou de repente e o barulho da queda assustou as gaivotas, e aí tudo se silenciou. O alaúde lascou quando atingiu uma pedra ao lado; ele, desmaiado, caiu de rosto para baixo na água, e ali mesmo morreu afogado, solitário e gentil. À noite a maré subiu, levando o corpo do Bardo para longe dali.

Seu alaúde não foi levado, já que ficou preso sobre uma das pedras ali na beira. Sua música foi silenciada e seu sorriso se apagou; seu nome não é lembrado, a não ser por aqueles de sua família e pelos seus antigos amigos, e os filhos deles. Naqueles que o conheceram, porém, permaneceu a sombra de uma lembrança, inatingível na consciência, bela em quietude, bondosa no silêncio. Como uma ilusão, um sonho. Deste tipo de pessoa, todavia, nós nunca lembramos, pois os homens relevam as coisas ruins, e só delas se lembram. E é assim com os heróis do nosso mundo; os heróis de verdade: não estão destinados à glória e à honra, mas sim ao fracasso e ao esquecimento. São mártires heróicos, mas não querem sê-lo. Por sua própria natureza, sempre terminam as grandes estórias de suas vidas mortos e sozinhos, para que aqueles que merecem o amor e a vida menos do que eles possam, assim, tê-los. Poético, tolo e injusto, mas necessário.

Dias depois, um Menino que passava por ali encontrou o alaúde; consertou-o com inesperada perícia, e passou a dedilhar melodias suaves, dando continuidade ao legado do Bardo.


Marcus Vinicius Pilleggi

Não esqueça de ver a primeira parte do conto Realidade Onírica – Parte 1 – O Guerreiro

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