Warrior_by_erenarik

O Guerreiro

Existia um jovem cheio de delírios de grandeza que, em sua juventude, gostava de praticar a arte das armas para que viesse a se transformar num homem-de-armas de grande valor. O jovem corria de lado a outro, e costumava sempre zombar um velho bêbado louco, cuja barba grisalha estava sempre suja de restos de um pão carunchento que acabara de comer, e que balbuciava como estivera em grandes batalhas, ao lado do rei em pessoa, muitas vezes.

Aconteceu, é claro, de o jovem garoto crescer. Tornou-se um homem bastante forte; alto e de ombros largos, imponente. Como era de se esperar, transformou-se num guerreiro habilidoso, e seu talento com a espada só não suplantava uma coisa: sua arrogância. Ele era muito bom, é verdade, todavia, o fio de sua língua chegava a ultrapassar o de sua espada, e em não poucas das vezes.

O Guerreiro envolveu-se em muitas batalhas, e conquistou para si um renome entre os seus e entre o povo do qual muito se orgulhava. Em muitos sentidos, poder-se-ia dizer, o Guerreiro estava feliz. Desposara uma bela mulher, mas não teve filhos; alguns dizem que a vida de constantes batalhas não lhe permitia isso. Os mais maldosos e invejosos resmungavam que o Guerreiro não podia ter filhos por algum castigo ou brincadeira dos deuses ou da natureza. O Guerreiro pouco se importava com isso. Contudo, não foram poucos desses que dele caçoavam que tiveram uma boa contagem de dentes quebrados.

Independentemente disso, o Guerreiro teimava em demonstrar toda uma pompa que não lhe cabia. Não que não merecesse, mas como se tudo aquilo que ele tivesse ganhado não houvesse sido conquistado, e sim garantido pelo destino. O Guerreiro se portava como se soubesse que iria ganhar tudo aquilo que tinha, obter tudo que obtivera. Noutras palavras, ele não valorizava tudo aquilo que possuía. Para ele, mais importante que sua mulher e o amor que ela lhe dava, seu posto e o respeito que ele lhe garantia, sua força e sua espada e os ideais que eles defendiam, mais importante era o status que isso tudo lhe provia.

Entretanto, o tempo passou e veio ao Reino um período de paz; soldados como o Guerreiro não eram mais necessários, e seu sustento era muito dispendioso. E aconteceu de o Guerreiro ser dispensado, para seu próprio desgosto. Aquelas mãos só sabiam fazer a guerra; rodopiar a espada e machucar, nada mais. Com o fim disso, ele sentiu em si um vazio que não conseguia preencher. E veio com o desgosto o vício pelos prazeres baratos e boêmios, daqueles tipos que enganam a angústia que assoma pelo mundo, desde sempre. O Guerreiro rebaixava-se nesse meretrício moral, e então sua bela esposa o abandonou. Conta-se que ela acabou se casando com um velho lorde, e viveu infeliz até sua morte por velhice.

O Guerreiro tornou-se um bufão, e caminhava embriagado pelas ruas da Capital resmungando contra o Rei. Entre as palavras que saíam pela sua boca, ouviam-se estórias e mais estórias de glória e grandes batalhas, de conquistas, de renome e de uma infinidade de inimigos derrubados. O pacifismo do Reino e a embriaguez do Guerreiro fizeram com que suas estórias sempre fossem desacreditadas; sua barba grisalha estava sempre suja dos restos da comida imunda que conseguia com dificuldade ou crime. Tornara-se algo que abominava: um inútil.

Um belo dia, o moribundo Guerreiro caminhou até um desfiladeiro que ficava no litoral. Lá no alto, sentou-se num grande pedra. Tinha a impressão de ouvir uma música suave e distante, e uma voz melancólica. Não se importou e se pôs a pensar. Lembrou de tudo que teve e desvalorizou, lembrou-se de sua juventude e sua glória. Enquanto fazia isso, agarrou uma pedra que ali jazia que devia ter o tamanho do seu punho, e ficou brincando com ela entre as mãos. E pensava.

Reviu toda a sua vida e, bah!, sabia que não a tinha desperdiçado. Lutou, como sempre quis e quisto, venceu sempre, conquistou. Sempre foi assim. Sempre teve o que queria. Estava decaído porque assim permitiu, no raro e único momento de fraqueza. Estava decidido, aquele Reino dele não precisava, mas havia outros, que certamente teriam bom uso para alguém de tamanhas habilidades. Jogou então a pedra para trás, desfiladeiro abaixo, levantou-se e voltou andando. Dizem que se mudou para o Reino vizinho, e ali eventualmente reconquistou sua glória. Morreu, conta-se, numa grande batalha, combatendo o próprio comandante do exército adversário. Teve, pois, a honrada morte que sempre desejou. E assim terminou sua vida, tendo sempre tudo aquilo que quis, desvalorizando e desmerecendo. Pelo sangue que quase sempre não era dele. E agora, diz-se, ele bebe em grandes salões entre os espíritos ancestrais.


Marcus Vinicius Pilleggi

Gostou? Não gostou? De um jeito ou de outro, não deixe de ver a continuação, Realidade Onírica – Parte 2 – O Bardo

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