walk

Após ler uma ou duas crônicas do Woody Allen sobre algumas historietas bastante incomuns, não poderia deixar de relembrar de uma em que eu mesmo fui um dos protagonistas. Não, não era nem uma noite fria nem uma noite chuvosa, mas pelo contrário, até que estava uma brisa bastante agradável quando tudo começou.

Não me lembro ao certo quem ligou para quem, mas combinei com um dos meus melhores amigos para sair num dia destes, comer um lanche em uma das lanchonetes mais tradicionais de São Carlos para os universitários – o que, convenhamos, me lembra mais uma taverna medieval dos anos de 1208 ou 1209 – um evento tão comum e rotineiro entre eu e este meu amigo que se tornou até ritualizado: não ir lá na lanchonete para comer um hambúrguer durante pelo menos um dia da semana era mau sinal.

Comer um hambúrguer, tomar dois litros de refrigerante, comer batatas fritas sempre se tornaram fatores secundários, já que o que importava mesmo era sair pra discutir sobre os eventos semanais que cada um passou, as notícias da boca miúda e por aí vai – o que as mulheres e muitas de nossas amigas chamam por “fofoca”, embora eu ainda tenda a discordar veementemente. Entre uma batata frita ou outra, além de vários pedaços do hambúrguer caindo no chão – dado bastante curioso, pois parece que eu só aprendi a comer sem derrubar nenhum pedacinho depois de vários lanches (e também depois de abandonar uma blusa que eu sempre usava que, não menos curioso, tinha o desenho de um alvo no centro), foi assim que eu soube de vários assuntos e temas curiosos, como o maldito por que da Arquitetura Moderna já ter nascido morta, como também a conclusão que, além do churrasco ser um evento essencialmente masculino, eu sou doido. No entanto, preciso contar para vocês que em uma dessas nossas reuniões, ocorreu um evento que espero, me isente da categoria de lunático, já que meu amigo passou por isso também.

Ah sim, retomando, estava uma brisa bastante agradável naquela noite. Íamos sempre na tal lanchonete à pé (porque eu ainda acredito que um carro nas minhas mãos pode se transformar em uma arma potencialmente perigosa, aí sim eu teria sérios problemas para tentar me isentar da categoria de lunático), chegamos no local lá pelas dez horas da noite e escolhemos uma mesa ao ar livre, como de costume. Naquele dia, a coisa toda já se apresentava do avesso, já que estavam exibindo um filme em uma parede da lanchonete através de um projetor, coisa que me parece do avesso, já que não acredito que as tavernas medievais passassem filmes nas suas paredes, ainda mais filmes ruins, daqueles que ao invés de instigar o apetite, nos faz ter vontade de jogar o apetite no projetor. Em todo caso, não nego, as batatas fritas estavam excelentes. Mas o que aconteceria depois seria estranho o suficiente para que eu esquecesse completamente dos assuntos tratados na reunião, como você vai ver.

Depois de uma porção de batatas fritas, lanches e dois litros de Coca-Cola (além de dois pedaços de ovo frito caídos no chão, refrigerante caído no alvo da minha blusa e por aí vai), na despedida fomos abordados por um carro, um carro francês me pareceu, pilotado por duas mulheres (provavelmente universitárias, mas essas coisas nunca se sabe) que, em outras circunstâncias, talvez as considerasse atraentes. Elas apenas queriam conversar e saber quais as festas que estavam acontecendo na cidade àquela hora, até que um pedinte nos procurou pedindo dinheiro para sustentar a família que morava muito provavelmente em Bauru (o que os pedintes de Bauru fazem em São Carlos eu não sei, mas foi o que ocorreu), quando a motorista do carro disse pro pedinte “ah, é vício, não é? Pode falar sério, dá pra perceber”, enquanto eu e meu amigo trocávamos olhares bastante surpresos.

Bom, era um vício sim, o pobre homem só queria dinheiro para sustentar seu vício, seja ele qual for, álcool, drogas ou uma família em Bauru, mas depois de ter ido embora com algumas moedas dadas pela motorista, as mulheres do carro francês começaram a conversar sobre a predileção de uma delas por sexo ao som de música francesa. Mon Dieu, até sei que o Francês é a “língua do amor”, mas afrodisíaco? A conversa assim seguiu até chegar em um assunto sobre uma benzedeira cujo cachorro, um poodle branco, admoestava (“admoestava” por falta de uma palavra melhor e menos obscena) os crentes que procuravam a benzedeira para resolver seus problemas, o que também me faz perguntar se a benzedeira sabia que possuía um cão bastante libidinoso.

No fim das contas, a única coisa que liga o sexo ao som de música francesa com um poodle levado não era mais nada além da bizarrice daquela noite, que parecia não terminar. Poucos minutos depois o pedinte volta a nos procurar, dizendo faltar poucos centavos para ajuda-lo a completar a tal quantia que ele tanto queria, mas sendo impossível atende-lo novamente, parece que eu e meu amigo fomos castigados por alguma entidade superior nos minutos seguintes. Indo as mulheres e o pedinte embora, ouvimos uma gritaria há alguns metros a frente, com um outro carro saindo bem rapidamente do local, um posto de gasolina. Se não bastasse, o carro pára, abre o porta-malas e um estranho homem (provavelmente outro universitário, pessoas transloucadas o suficiente para fazerem estas coisas quando geralmente bebida e cerveja estejam em pauta), gritando, entra no porta-malas do carro, tranqüilamente! Depois de devidamente “acomodado”, o carro parte, quando outro carro passa na nossa frente com o passageiro gritando pra mim: “ei, esse aqui é o namorado da fulana não sei quem!”.

Com medo de prolongarmos os eventos bizarros daquele dia, decidimos ir embora para casa o mais rapidamente possível, sendo que, creio eu, um OVNI poderia nos raptar ali tranqüilamente, pilotado pelo Bozo vestido de Darth Vader ou Hebe Camargo. No caminho da minha casa, por sua vez, fui seguido por um carro branco, cujo motorista eu veria depois, após o carro parar do meu lado, sendo uma mulher de charuto, fumando tranqüilamente o seu estupefaciente enquanto esperava o semáforo abrir. Como cheguei em casa? Sinceramente eu não sei. Descobri um bom tempo depois que tais eventos, bizarros, surreais, non-sense ou seja lá o que for, não me abandonariam mais, como também meu amigo. Não sei por que me procuram, mas pelo menos de uma coisa eu posso ter certeza: doido eu não sou.

Victor Hugo, O Errante

Victor Hugo Kebbe

Nerd, Antropólogo Japanologista, Bibliotecário do Novo Canon e do Velho Universo Expandido de Star Wars, Dragonborn, Witcher, Vault Hunter, exímio piloto de A-Wing, combatendo os Geth e Reapers até os dias de hoje.

5 comentários »

  1. Não sei pq… acho q ja vi esse texto aqui em casa HAHAHAHAHAHA
    Show de bola!!!
    BACKUP RULES!!!!!
    (primeiro comentario com WIN7)

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