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Não tão simples quanto parece. Ou talvez tão implícito, simbólico e terrível como realmente parece aos olhos mais atentos. Os fanáticos reconhecerão o velha lema da Tyrell Corporation, de Blade Runner, renomado longa-metragem de Ridley Scott e baseado no romance Do Androids Dream of Eletric Sheep, de Phillip K. Dick. Entretanto, o que isto significa? Ser “mais humano que os humanos” é um lema no mínimo capcioso; talvez a busca pela perfeição genética. Vale dizer que os Replicantes não são “ciborgues”, mas sim organismos, seres vivos, criados pela engenharia genética para serem mais fortes e ágeis e super-inteligentes. Quase perfeitos. Talvez esta seja a concepção de ser “mais humano que os humanos”; uma proximidade da perfeição ao ponto de se tornar assustador.

É claro, este e tantos outros são apenas, numa análise superficial e incompleta, exemplos da boa e velha ficção científica. Coisa de temática bem Cyberpunk, que a gente aqui no Ao Sugo gosta muito de discutir, aliás. Contudo, será que uma realidade parecida estaria mesmo tão distante? O livro “Regras para o parque humano: uma resposta à carta de Heidegger sobre o humanismo”, de Peter Sloterdijk, traz uma discussão interessante acerca dos destinos do humanismo com as especulações sobre a genética e suas manipulações ao cargo que atingem hoje. Ainda, o filósofo alemão discorre sobre uma relação do humanismo com os elementos midiáticos.

O autor caracteriza o humanismo como o estabelecimento da amizade por meio da escrita; os livros seriam como cartas longas, dirigidas a destinatários distantes ou não especificados; essas cartas (leia-se, os livros) geram uma sociabilidade humana literária, de amor à leitura e ao saber, desse modo humanizando o ser humano, em contrapartida à bestialização e brutalização trazidas pelos espetáculos de digladiação e morte. O humanismo vinha na tentativa de domesticar, amansar, desbrutalizar o homem.

Nessa discussão, Sloterdijk mostra a derrota do conceito, a brutalização do ser humano e, dessa forma, o enfraquecimento do humanismo enquanto domesticador da face animal do homem, da besta interior de cada um. Nos dias de hoje, verifica-se o humanismo, nessa concepção de domesticador, em batalha com outros meios midiáticos que não existiam no período Antigo, mas que tomam grande parte da consciência humana. Como instrumento marcante de nossas gerações existe a televisão; não é incomum vermos programas sensacionalistas ou mesmo alguns que, supostamente, teriam a função de entreter, mas que propagam a banalização e espetacularização da desgraça alheia. A cada nova edição de “midializações” como essa o humanismo domesticador perde força.

É importante notar, porém, que o humanismo não se limita ao caráter domesticante; retornando ao conceito da amizade literária, um grupo social estabelecido por essa amizade de suas literaturas pode defender seus interesses conjugais com mais força. Sloterdijk exemplifica com os humanismos nacionais burgueses do século XIX, que impunha aos jovens a leitura de clássicos nacionais internacionalizados ou de clássicos internacionais nacionalizados, e ao mesmo tempo esses humanismos conseguiam impor a prestação de serviços militares e a instituição de grandes normas de disciplina. Esse comportamento, porém, acabou levando a grande fratricídios; é nesse contexto que Heidegger, em quem, a início, o livro se baseia, questiona do por que se buscar o humanismo se o mesmo levou apenas para uma tomada de poder sobre todos os seres, numa manifestação cega de antropocentrismo.

Sloterdijk, entretanto, ao narrar a falência do humanismo, acaba lançando a dúvida da possibilidade dessa bestialização levar a evolução para uma reforma da própria espécie humana através da genética manipulativa; o que o filósofo chama de antropotécnica, dessa forma planificando e padronizando, explicitamente, as características humanas, e “se a espécie humana não irá passar do fatalismo do nascimento ao nascimento escolhido e seleção pré-natal”.

A idéia do parque humano mora justamente nessa concepção; os humanos seriam como um rebanho, pouco diferentes uns dos outros, a não ser por um outro humano (ironicamente, poder-se-ia dizer, “mais humano” que os outros) que, sendo mais consciente de si, pastorearia seus iguais. Isso, é claro, também se torna verdade a partir da domesticação humana.

Em verdade, essa discussão de Sloterdijk gerou poderosa polêmica devido, segundo o próprio autor, à uma interpretação errônea de suas idéias por alguns jornalistas presentes na palestra que o filósofo deu no castelo de Elmau, na Baviera, e que veio a gerar o livro. Esses jornalistas teriam radicalizado a discussão do autor, acusando-o de favorável à manipulação genética e à seleção pré-natal, entre outros, enquanto, no fundo de seus intentos, Sloterdijk apenas discutia os perigos, ou melhor, as infelicidades da falência do humanismo e algumas possibilidades, haja visto as andanças de nossa própria sociedade e o meio midiático que a envolve. Meios que tanto inibem como desinibem os seres humanos moldando-os em características padrão.

Como supracitado, no passado a derrocada do humanismo havia se dado para os espetáculos violentos das grandes arenas teatrais romanas. De forma semelhante, para Sloterdijk, a escola perderia para a bestialização da sociedade pela cultura massificada e o mau ou discriminado uso dos meios e das instituições midiáticas e dos instrumentos desinibidores da indústria de entretenimento. Dessa forma, o câncer que parece intrínseco ao humanismo cresce e o degrada ainda mais. Assim, a antropotécnica poderia entrar como o caráter inibidor; ou seja, o uso de artifícios não-humanistas pelo humanista, para atingir seu objetivo de “humanizar o ser humano”.

Recorrendo a Platão, uma sociedade deve se constituir de duas parcelas combinadas com presteza: uma natureza reflexiva e uma natureza mais bestial e instintiva. Estas duas naturezas devem ser moderadas e equivalentes, sendo que nenhuma deve dominar a outra; o domínio da natureza bestializada buscaria a guerra de forma inconseqüente, enquanto a parcela reflexiva, por ser pacifica, evitaria conflitos e se subordinaria. Portanto, é preciso a combinação. É o político, segundo Platão, que deve governar isso, e tecer os fragmentos de cada um dos lados. E Platão também dizia que a matéria-prima para essas naturezas existe já dada; todavia, parece cada vez mais difícil encontrar os elementos primórdios de cada um ou mesmo de ambos os lados.

Então, talvez a antropotécnica entrasse como produtora da matéria-prima, possibilitando solucionar o embate da inibição contra a desinibição, garantindo uma mescla mais habilidosa e cuidadosa, em prol da sociedade. O autor, porém, não toma partido sobre para que lado, inibidor ou desinibidor, a antropotécnica haveria de pender, nem quem seriam os pastores, criadores e legisladores das “regras para o parque humano”; mas proporciona uma grande discussão acerca do humanismo e como sua degradação pode vir, veio ou virá acarretar para a sociedade, além de discussões acerca da própria natureza do homem, aquela de dominar um ao outro.

Marcus Vinicius Pilleggi


Além de alhos com cabeça, pés e dentes nós do Ao Sugo adoramos discutir coisas sérias. Se você quer saber mais sobre esta temática, visite nossos artigos sobre o mundo Cyberpunk.

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