Vamos falar um pouco de um filme que ficou, imerecidamente, na penumbra de público e crítica. Mestre dos Mares, dirigido por Peter Weir (diretor também do belo Sociedade dos Poetas Mortos e do fantástico Show de Truman), foi inspirado numa série de livros homônima escrita por Patrick O’Brian, e adaptado pelo próprio Peter Weir e John Collee. A grande maioria das pessoas nem sabe disso, mas é normal. Digo, não saber que veio de um livro; isso é muito mais comum do que a gente pensa. Enfim, a premissa do enredo é o conflito entre duas naus, uma inglesa, o HMS Surprise, capitaneada por Jack Aubrey (Russell Crowe – razoável), protagonista do filme, e sua contraparte antagônica, a caravela francesa de três mastros Acheron (sempre achei essa palavra imponente: Acheron, e pensar que é só o nome de um rio na mitologia grega: Aqueronte). O objetivo do Surprise e do Capitão Aubrey é interceptar o Acheron, ocupando-o, afundando-o ou queimando-o.

Apesar deste enredo, quem for assistir ao filme esperando grandes e incessantes batalhas náuticas e espetáculos explosivos ficará decepcionado. É claro, as batalhas e a guerra estão presentes, mas em bem menor grau do que se podia esperar, e mesmo situado na época das guerras napoleônicas (o filme começa em 1805), o enfoque é justamente o Surprise. Quer dizer, mesmo num cenário de guerra, envolvendo naus de batalha que estão virtualmente em conflito, a produção não se torna um “filme de guerra”.

Sem dúvida, o ponto forte da película (palavra estranha essa, película) é realmente mostrar a vida dos marujos e dos nobres a bordo do Surprise. Está tudo lá: as diferenças de classes, crenças, costumes, as mortes e as doenças, e as decisões complicadas que circundam o Capitão Aubrey, que tem como confidente o amigo e médico da nau, Stephen Maturin (Paul Bettany, competente o suficiente). Além de muito bem produzido, sendo realista e plasticamente impecável, a “historicidade” do universo do Surprise é impressionante. A nau torna-se o microcosmo dos infortúnios aos quais os viajantes marítimos estavam fadados, e mesmo enfrentando períodos de tempestades ou calmarias, frio ou calor, o filme não fica exagerado. Desde os filhos dos nobres, os jovens tenentes, até a linguagem náutica: está tudo presente.

Em meio a essas dificuldades, aventuras e desventuras, a narrativa corre muito bem. Claro, como um filme que enfoca do aspecto humano das guerras marítimas do passado, seu ritmo é mais lento do que se podia imaginar, mas alternando uma rítmica calma dos entre batalhas do Surprise, Peter Weir consegue passar o sentimento de cansaço e desesperança dos marujos. Aquela sensação de que “não vai acabar nunca”; só que isso não compromete o filme em momento algum, que também tem uma trilha sonora maravilhosa.

Entretanto e entrepouco, apesar de todas as suas qualidades, Mestre dos Mares foi um sucesso relativamente pequeno, tanto de crítica quanto de público. O conhecimento do desagrado da crítica vai além das minhas capacidades, mas o apreço do público foi prejudicado, acredito, justamente pela expectativa de um filme de guerra, e não humanista, em certo modo. Para aqueles que apreciam um bom filme histórico, bem dirigido, feito com cuidado e competência, e que tem gosto pela época tratada, assim como o assunto, Mestre dos Mares é um belo filme, que não recebeu o respeito que merece.

Marcus Vinicius Pilleggi

4 comentários »

  1. Um filme realmente fascinante… só que força um pouco
    quando mostra que o médico chegou em Galapos primeiro
    que Darvim

  2. Felipe, Darwin é simplesmente o mais famoso dos visitantes das Galápagos, e seu estudo lá foi em grande parte inspirado no arquipélago, gerando o famoso Origem das Espécies. Nenhum registro mostra que ele foi o primeiro cientista ou nem mesmo o primeiro naturalista a pisar nas Ilhas Galápagos. Na verdade, o pequeno arquipélago era muito bem conhecido por navegantes espanhóis e ingleses, que faziam constantes paradas lá para mantimentos quando passavam tempo demais pelas costas da América do Sul.

  3. Marcus, se você parar para perceber, o Dr. Stephen na verdade , É Darwin….tudo leva á crer isso..primeiro, olhe uma foto de Charles Darwin (http://www.girafamania.com.br/artistas/charles-darwin1840.jpg), note a extrema semelhança entre ambos…
    Segundo, Darwin, quando foi para Galápagos, também ficou fissurado em um pássaro que viu, que era diferente dos outros da msma espécie, e por causa desse passáro é que comeeçou a criar a teoria das espécies..
    Para mim o Dr. Stephen é Darwin com outro nome…

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