O “Caso Isabella”; eis a mais nova mania nacional. Ouviram falar disso? Oras, todos ouviram. Esteve nas bocas e letras dos mais diversos instrumentos midiáticos no último mês. Sim, é isso que você ouviu. A desgraça aconteceu já há mês; dia 29 de março, para ser exato. Dos telejornais a jornais impressos, das revistas aos programas toscos que povoam a TV aberta. Dos parentes à tia da padaria, todo mundo fala do “Caso Isabella”. Ou então de um padre que voa com bexigas; mas o Mr. Bean já fez isso há muito tempo com um carrinho de bebê. As coisas se copiam mesmo.

Esta cobertura em particular é exemplo perfeito de ao menos dois dos fenômenos mais, com o perdão da palavra, escrotos do jornalismo atual. O primeiro deles é o espetáculo: pegar algum acontecimento e fazer toda uma programação, pautas, buscas e entrevistas, comentários oficiais, extra-oficiais, não-oficiais e oficialmente imbecis. Tudo, é claro, sempre procurando a melhor foto ou o melhor ângulo. Eu me pergunto se alguém não filmou com um celular a pobre menina caindo do prédio. Afinal, no telejornalismo (o tipo que, infelizmente, mais atinge a população) as pautas são baseadas na possibilidade ou não de gerarem boas imagens (depois quando digo que não existe jornalismo na televisão, eu estou exagerando).

Bem comum, você liga a televisão e passa por aqueles programinhas da manhã ou da tarde ou da noite e tem sempre algum jornalista de plantão em algum departamento policial, pronto para reportar a que horas a madrasta, o pai, o avô, a tia, o cachorro ou o passarinho vão depôr. Fico surpreso de não ter havido (ainda, deixemos claro) comentários sobre os modelitos que cada um usava. Algo como “e ela foi com uma camisa de verde-abacate que era linda, mas não combinava com os sapatos”. Enfim, lá estavam os jornalistas, de pé e de guarda, prontos a expor e espetacularizar a vida alheia por causa de uma “idéia” de algum pauteiro muito do infeliz. Eles de plantão lá, nós do outro lado da tela, esperando o espetáculo. Melhor só se fosse um reality show.

Ah sim, esse é o outro fenômeno, o que no ramo se chama de agenda setting. É bem simples: o agenda setting é simplesmente a idéia de pautar o que todo mundo está pautando, só para não ficar de fora. Para não ser o “jornal que não cobriu o ‘Caso Isabella’” ou qualquer coisa do gênero. Para isso, ele se baseia no quão bem ocorre a correspondência do público com a cobertura. Quer dizer, é simples: se o público responde bem à notícia (leia-se, audiência) então você aumenta a cobertura daquele fato. De certo modo, espetaculariza. De certo modo não, de todo modo mesmo. É por culpa deste fenômeno que você vê sempre as mesmas notícias em tudo quanto é lugar. Um medo de se arriscar a dar alguma notícia diferente; quer dizer, os caras além de tudo esquecem que para ser notícia não adianta ser só “novidade”. Engraçado que todos estudam isso, mas ninguém nunca muda. Jornalista é assim mesmo, não gosta de falar sobre o que faz de errado. Se bem que, convenhamos, ninguém gosta.

Agora, se você acha que não tem culpa no cartório, desculpe por dizer, mas tem sim. Reclamar todo mundo reclama, mas é importante que pensar que as coisas são feitas dessa maneira porque alguma “mente malévola” pretende destituir a massa de sua vontade é teoria da conspiração até um pouco demais. Paranóia comum, eu diria. Eu ouço com freqüência pessoas se perguntando “por que não falam de outra coisa?” ou então, sobre aqueles jornalecos do tipo espreme-sai-sangue, comentários do tipo “por que mostram essas coisas?”. Mas o mais engraçado é que ninguém pára de assistir. Filho: eles mostram porque você assiste. E sem a desculpa de que “em todos os canais passa isso”. Toda a televisão que eu conheci até hoje tinha um botãozinho mágico que todos deveriam apertar. O nome dele costuma ser Off ou Power ou, se preferir Tecla do Poder. É do Poder mesmo, o poder de não encher a cabeça de abobrinha. Porque esta abobrinha pasteuriza o público; torna-o massificado.

Não me leve a mal, o tal do “Caso Isabella” é uma tragédia; uma pobre menina que nem teve o tempo de ver como a vida é um fardo e o mundo, uma merda. Ela estava na melhor fase da vida, a infância, quando você é feliz de verdade e nem se dá conta (talvez este tenha sido seu único conforto, aliás). Por culpa de alguém muito perturbado, a gente não sabe se ela vai crescer e se tornar uma grande mulher, se ela será mais forte do que eu ou mais inteligente que você, ou se ela se tornaria um adulto comum, com todo direito à estupidez que o cargo de adulto garante. Entretanto, quantas pessoas que acompanharam assiduamente o “Caso Isabella” se perguntaram quantas outras crianças morreram de forma tão violenta e covarde como essa, ou até mais? Por mais terrível que tudo tenha sido, não existe bom motivo para transformar todo o problema num show de horror, num novo programa para amansar o povo, que no máximo vai dizer “que horror” e continuar sentado no sofá. Nós não vamos e nem podemos, e na verdade nem devemos querer saber de tudo, só que este não é motivo para escancarar a vida das pessoas na televisão. Como uma grande Copa do Mundo, só querem saber quando e como vai ser o próximo jogo.

No fim, tudo o que fazemos é engolir um monte de informações e imagens sem digerir, e vamos regurgitar ou defecar tudo depois, como algo que nos fez muito mal. E não haverá sal-de-frutas para combater. A televisão é um tupperware de imagens. Sim, um tupperware. Aqueles potinhos que servem para você guardar a sobra do almoço, enganando-se que vai esquentar e reaproveitar aquilo. Engana-se porque raramente aproveita; no fim acaba jogando fora. Então, a televisão é assim: ela guarda um monte de imagens para nos fazer pensar que serão úteis, e no fim das contas só se aproveita um pouco do arroz. Como a sobra de comida, a maioria das imagens da televisão só estão ali de passagem: é dali para o lixo. Isso porque há várias décadas tem-se notado uma confluência no âmbito da comunicação social para a relevância exacerbada da visão, sendo ela que capitaneia os sentidos em ordem de importância. Desde muito tempo, a visão é elevada ao patamar de ser sinônimo de conhecimento. Ver é conhecer, e essa “videosofia” garante ao campo das imagens um poder que, com o passar dos anos, só tem se fortalecido. Já diria Dietmar Kamper  que, na nossa sociedade, ser visível é ser alguém ou algo de valor.

Ah, peço perdão: quando eu disse “fenômenos do jornalismo atual” eu deveria ter dito “da sociedade atual”. O espetáculo é culpa da sociedade também e, sejamos justos, na maior parte. Praguejar para a sua televisão não resolve nada, então pare. Faz papel de ridículo e estraga a vista. E aqui vai um conselho amigável: se você não consegue achar a sua “Tecla do Poder”, lembre-se que sempre existe a tomada. Puxe o fio ou então enfie seu dedo nela.

Marcus Vinicius Pilleggi

1 comentário »

  1. Quando o Vitão falou que vocês estavam preparando um artigo sobre o caso Isabela eu esperava os comentários de sempre. Que virou uma novela gigantesca, ou como disse a Fran, um CSI reality show…. Mas o que eu vi foi mais que isso. Tenho que dizer que esse texto superou minhas expectativas. Está realmente muito bom senhor Marcus! Não tenho nenhum ponto em que descordar ou alguma coisa a acrescentar. Bem, talvez um ponto a lamentar… que a televisão seja a vítima da vez… (junto com a Internet, talvez) quero dizer, pára pra pensar, esse aparelho é fantástico. Ele junta imagens e sons… isso é ótimo! Sério! O problema está no que você já apontou, então não vou repetir tudo de novo…como eu já disse, concordo… Mas isso é assim mesmo, certo? Quero dizer, quando só se tinha a escrita porcarias circulavam por ai, assim como hoje vemos o q vemos na TV… E assim foi com o rádio, TV, Internet… e vai saber mais o que? Mas você já apontou isso, né? E isso, o problema não é a TV, mas como você falou a sociedade. E de novo concordo!
    Bem, claro que essa é a opinião de uma aspirante a arquiteta, que como todos sabem tem um conhecimento superficial de sociedade e comunicação. Então, me atrevo a dizer q essa são minhas impressões e opinião, baseadas em nada, ou talvez em um pouco de tudo… aiaiai
    Bem, mas é isso. Parabéns pelo texto!
    Ah, e estou esperando o LOST! Hehe
    Beijos!

Deixe um comentário elegante

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s