Primeiramente, gostaria de agradecer a visitação aqui no Ao Sugo e também aos comentários deixados por vocês em nosso site: eu e o Marcus estamos acompanhando com cuidado as estatísticas e estamos bastante felizes com este tipo de feedback, nos motiva a escrever cada vez mais. Por conta disso, fico feliz em trazer também no presente texto uma análise – super parcial – do livro 1 da trilogia “Fronteiras do Universo”: “A Bússola de Ouro”, lançado por aqui pela Editora Objetiva.

Tanto falei até agora desta obra de Philip Pullman em pelo menos dois artigos aqui do Ao Sugo, sem contar o Marquinhos também fazendo suas citações, porém percebo tardiamente que faltou uma melhor análise do livro – em outras palavras, apresentei de modo bastante aéreo e nebuloso sobre o filme e algumas pontadas sobre o enredo, no entanto, aposto que não foi o suficiente para incitar a curiosidade de vocês. Pois bem, cá estou, primeiramente para fazer, como disse, uma análise em vários níveis do livro e com base em algumas de minhas impressões. Nesse sentido, longe de ser uma resenha, este texto conta algumas percepções que tive ao ler o livro e seria de grande valia se aqueles que também tiverem lido o livro pudessem tecer alguns comentários (entenda, resenha você acha facilmente no Google, então isso aqui tem spoiler sim).

A trilogia Fronteiras do Universo foi lançada originalmente na Inglaterra com o nome “His Dark Materials” em 1995 com o primeiro volume, “The Nothern Lights” (nos Estados Unidos traduzido como “The Golden Compass”, sugerindo portanto a tradução brazuca: “A Bússola Dourada” aqui e em Portugal e, posteriormente, “A Bússola de Ouro”), o segundo volume em 1997, “The Subtle Knife” (que temos aqui por “A Faca Sutil”) e por fim o último volume, “The Amber Spyglass” (“A Luneta Âmbar” em português), lançado em 2000, todos pela Scholastic Point.

Os livros, embora sejam relativamente “novos” por aqui são portadores de estrondoso sucesso lá fora: “A Bússola de Ouro” ganharia em 1995 a Carnegie Medal para literatura infantil, sem contar “A Luneta Âmbar”, que ganharia em 2001 o Prêmio Whitbread para melhor livro infantil, além do Prêmio Whitbread de Melhor Livro do Ano em 2002, não sendo portanto um espanto a trilogia ter sido publicada em 39 idiomas e vendendo mais de 10.000.000 de exemplares em todo o mundo, agora disponibilizada no Brasil pela Objetiva e aproveitando o espaço aberto pelo lançamento do primeiro filme da trilogia pela New Line que têm como protagonista a estreante Dakota Blue Richards, além de Nicole Kidman e Daniel Craig em papéis super importantes, a Sra. Marisa Coulter e Lord Asriel respectivamente.

O Mundo de Lyra

Inglaterra, virada do século XIX para o século XX provavelmente. Embora o livro não forneça nenhuma data ou indique algum evento que possamos usar como referencial, fica claro desde o começo que este mundo é um pouco diferente do nosso atual: as fronteiras políticas entre os países são diferentes, os povos são diferentes, as culturas, portanto, diferentes e as relações de poder, mais diferentes ainda. Será?

Imagine um mundo em que a eletricidade é substituída por lamparinas anbáricas ou luzes de nafta, um mundo onde balões zepelins de design engraçado sobrevoam o globo, um mundo que uma instituição de grande poder, o Magisterium, conjuga em si o poder do Estado e da própria Igreja, instituição capaz de dizer o que faz e não faz parte da verdade. Paralelamente temos grupos de pessoas e outros seres fantásticos, como as Feiticeiras que voam em galhos ou os Ursos de Armadura logo mais ao norte gelado, ursos polares orgulhosos e bastante habilidosos não só na confecção de grandiosas armaduras de batalha como exímios soldados. Os tártaros são moradores cruéis que habitam o norte próximos aos ursos, assim como os gípcios são nômades e atravessam todo o globo em suas embarcações e costumes peculiares.

Ok, tudo muito bonito e, lido o livro todo, realmente atraente, mas o que mais chama a atenção são os dæmons, isso, dæmons. Pronuncia-se “dimon”, aliás, a maneira como foi traduzido para o português e, aos engraçadinhos que pensaram em associações perversas com a palavra demon – “demônio” em inglês ou em outros idiomas, pode tirar o cavalinho da chuva, não tem nada a ver. “Gênio pessoal” para Sócrates, do original em grego Δαίμων, ok, podemos até forçar a interpretação e chegar nesse ponto, mas não. Explico, só que será necessário da sua parte um esforço de imaginação.

No nosso universo e no nosso mundo nós fizemos, através da filosofia, religião, etc, o favor de separar o corpo da alma, do espírito, questão que não preciso me alongar muito aqui, aliás, nem quero entrar nessa toada. Mas separamos, apesar de acreditarmos em várias religiões que alma e corpo coabitam um mesmo espaço: “o corpo em si não é nada sem a alma”, já ouviram esse papo, não é? Pois bem, agora imagine um mundo em que a alma e a personalidade está literalmente separada do corpo? E mais, imagine que a sua alma, sempre andando ao seu lado e te guiando enquanto consciência e marca de sua individualidade assumiu uma forma animal, uma borboleta, um cachorro, uma pantera, não importa qual, e fala. Continuando, enquanto crianças, nossas almas poderiam se transformar em vários animais e, assim conforme crescemos, nossa alma adquire uma única forma, reflexo do que vivemos ou porque estamos mais centrados e conscientes enquanto pessoas ou, para nossa tristeza, reflexo do quanto nós, adultos, nos tornamos cada vez menos facetados diante do cansaço do e com o mundo. Imaginou tudo isso? Então você provavelmente chegou muito perto do mundo de Lyra Belacqua, a protagonista da trilogia Fronteiras do Universo, prazer.

Pois é, no mundo de Lyra, uma dimensão ou um universo alternativo ou paralelo ao nosso, nós andamos com os nossos dæmons, as nossas almas ao nosso lado, cuja forma animal é um espelho da nossa própria personalidade. Nesse sentido, qualquer pessoa pode, com um esforço da imaginação, entender um mínimo de como seria você identificando no seu dæmon alguns trejeitos e padrões comuns: pessoas cujos dæmons são cachorros podem demonstrar algum tipo misto de autoridade com obediência, assim como pessoas cujo dæmon é uma ave de rapina poderia significar uma pessoa cautelosa e que se aferra aos detalhes, chute meu. Digo mais. Neste mundo é considerado um tabu tocar o dæmon de outras pessoas, o que interpreto de maneira simples: qual ato seria mais deplorável e repugnante do que uma pessoa poder tocar na instância mais íntima do seu ser, violar através de seus dedos a sua alma, a sua personalidade, a maneira como você encara o mundo à sua volta?

Eu sei, um mundinho bem estranho este e até gostaria de continuar a discussão, mas pararei por aqui quanto aos dæmons, afinal, quero que vocês leitores leiam os livros, sem contar que existem enésimas comunidades no Orkut que discutem isso. Quanto ao universo de Lyra, bem, temos mais. Temos o Pó.

Ei, pode parar com o pensamento maldoso. O Pó em A Bússola de Ouro, observado  “filosoficamente” apenas através de vários instrumentos filosóficos, é na verdade o conjunto das partículas elementares de Rusakov, simples! Não entendeu, né? É, também não vou explicar isso. Mas é o que motiva o enredo e a jornada de Lyra Belacqua neste primeiro livro, ao seguir os passos do seu tio, Lord Asriel, pesquisador da Universidade de Jordan, Oxford, para o Norte em busca da verdade sobre o Pó, verdade esta que promete abalar as bases mais profundas do pensamento religioso – controlador – pregado pelo Magisterium. Munida apenas de sua inocência (daquelas que a gente só tem quando é criança) e de um aparelho chamado aletiômetro (daqueles que a gente deseja quando é criança), um instrumento capaz de dizer a verdade, Lyra se confronta com a busca por seu amiguinho desaparecido, Roger Parslow, além do encontro com feiticeiras, ursos polares e aeróstatas, perseguida pelos Gobblers, funcionários de uma instituição inquisitorial e secreta do Magistério denominada Conselho de Oblação, pessoas perniciosas cujo principal objetivo é, juntamente com o Tribunal Consistorial de Disciplina, eliminar qualquer possibilidade das pessoas pensarem para além da verdade fornecida pelo Magisterium. Terrível, não?

A crítica à Igreja ou ao pensamento religioso e talvez a um Estado Totalitário neste primeiro livro da trilogia Fronteiras do Universo já é por si só descarada e feroz, porém podemos nós fazer um refinamento. Durante o livro percebemos como as universidades cumprem um papel fundamental em “provar” para a população a verdade pregada pelo Magisterium através das melhores pesquisas filosóficas e inúmeros instrumentos filosóficos. Filosóficas? Instrumentos filosóficos? Bem, filosofia vem da junção dos termos philos, amor, com Sophia, sabedoria, ou seja, o amor pela sabedoria, pelo conhecimento e pela contínua reflexão de visões de mundo. Bem, diante do controle opressor pela verdade exercido pelo Magisterium, nem preciso continuar o papo nem encher a boca e dizer “balela”. Diferentemente de pesquisas científicas que buscam, através de uma metodologia científica específica algumas explicações para as maneiras de como a realidade sensível se apresenta a nós, estas “pesquisas filosóficas” por sua vez estariam totalmente enviesadas pela produção do que é ou não é verdade, ditadas aqui por um órgão secular, atemporal, que teme por princípio a descoberta de coisas realmente novas. Uma amiga minha acabou de me alertar que a crítica à Igreja, Católica, poderia ser estendida na verdade a todos os Estados que estão vinculados a um tipo de pensamento religioso, o que de fato não podemos descartar enquanto hipótese bastante plausível.

Percebemos diante da própria existência dos dæmons e na temática dæmon/alma/personalidade que o autor valoriza enquanto elemento essencial do livro a capacidade de cada indivíduo de escolhas, escolhas estas ocultas ou esmaecidas porque talvez ainda não tenha havido a “descoberta” desta capacidade por parte dos próprios indivíduos. Como assim “descoberta”? Bem, se por anos este órgão, o Magisterium, ditou à exaustão no que acreditar, é também muito fácil e automático para nós percebermos que a própria visão de mundo no universo de Lyra pode estar contaminada, senão impregnada pelo pensamento religioso. Não é à toa que o livro um indica a todo momento a possibilidade de uma grande guerra num futuro próximo, guerra esta causada pelo fato de as pessoas estarem realmente questionando o pensamento ditado pelo Magisterium e assim estando talvez mais próximos da verdade. Bem, diante desta crítica, aí você me pergunta se a trilogia Fronteiras do Universo é uma literatura para crianças, aí eu te pergunto: é uma literatura para crianças?

Apesar da densidade do tema e da crítica que estão presentes no livro A Bússola de Ouro, acreditem, o livro é realmente bom. Philip Pullman escreve de maneira ágil e simples, sem contar que a tradução de Eliana Sabino para esta nova edição pós-longa-metragem-da-New-Line foi, acredito eu, bastante feliz. Não vim aqui para discutir filosofia, a profundidade filosófica de A Bússola de Ouro ou os altos e baixos da aventura de Lyra porque espero que você leia o livro, de cabo a rabo. Aí depois a gente conversa.

Victor Hugo

7 comentários »

  1. Estou terminando o terceiro livro da trilogia completamente encantada com a coragem do autor de abrodar temas tão polêmicos. E apaixonada pela narrativa ágil e inspiradora.
    É de verdade uma obra que vai entrar para a história.

    Excelente blog!

    Abs

    • Caro Romulo,

      Acredite se quiser, você não é o único interessado nesta resposta. O próximo livro deveria sair com o mesmo título do segundo livro, “A Faca Sutil” (ou The Subtle Knife, do original em inglês), narrando as aventuras da Lyra e um novo companheiro, Will.

      Porém temos um problema: chegamos a ler que A Bússola de Ouro deveria ser a trilogia da New Line Cinema da atualidade capaz de bater O Senhor dos Anéis (também da New Line), até que o investimento na produção e distribuição do filme foram imensas. Infelizmente a bilheteria não correspondeu aos anseios da produtora, sendo um filme que não caiu no gosto dos fãs a ponto de justificar uma continuação. Temos portanto um filme parado e sem previsão de lançamento… Triste, não?

      Abraços,
      Victor Hugo

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