Titanomaquia

As definições mais óbvias do jornalismo o colocam como o ofício que lida exclusivamente com os fatos, e não a ficção, com o trabalho nobre da “busca pela verdade” ou “retratação do real”. Deveras digno. Só que, se é fácil ver o jornalismo dessa forma, o problema se complica quando recaímos no colapso ideológico trazido por indefinidas definições como “o que é o real” ou o pior, “o que é notícia” ou “fato”. Mas estas questões não estão nos infindáveis e paradoxais “Manuais de Estilo” de órgãos de mídia e tampouco são realmente discutidos nas inúmeras salas das escolas de jornalismo.

O conceito de real está tão perdido quanto as cânones virtudes do jornalismo, relegados ao esquecimento nos confins mais escusos do Tártaro. Atualmente, o que se vê é a vivência pelo imagético, pela simulação autofágica de uma realidade demonstrada, mas não necessariamente demonstrável, um mito por si só; isso também porque se tem a necessidade de engolir uma quantidade cada vez maior de informações, essas divindades de valor questionável, num fetiche medonho de imediatismo informacional. Aliado a isso existe a valoração da notícia enquanto simples novidade, conceituação que irreleva o conteúdo por uma idéia muito mais mercadológica. Mais do que um relâmpago de Zeus, tentamos matar Cronos e ser mais fortes que os titãs ou os deuses. O maior dentre os maiores.

Acontece que o presente contínuo informacional e pasteurizado é uma morfina, que lentamente transforma a mente numa massa anestesiada e moldável de insossibilidade, de modo que pouca coisa é vista como uma novidade, sendo ela suplantada pelo inusitado. E a droga que reverte esse estado anestésico é justamente o apelo ao horror. O ecstasy midiático.

Isso gera um problema, que é aquela velha espetacularização da notícia, que fortalece o vínculo do jornalismo com o entretenimento, iniciando o ciclo que proporciona um gosto pelo grotesco, inimaginável por sua evidência. Para que imaginar como Cronos cortou os testículos de Urano, se pode-se ver? Ao mesmo tempo a mídia, em muitos momentos ,dedica-se a ser um espelho de si mesma, numa empáfia e esquizofrênica demonstração de narcisismo, onde cada um diz ser mais real que outro. Talvez a dilaceração dos órgãos genitores de Urano fosse mostrada porque Cronos assim queria, ilustrando sua vitória, e um outro (ou outros) ainda gostaria de ver. Inútil? Pode ser. Grotesco? Possivelmente. Sem conteúdo? Talvez… Porém, realmente inusitado. Não obstante, notícia. Afinal, não é sempre que se vê um titã a perder os bagos.

Portanto, é como uma distorção muito mais doentia da profecia de Cronos: o jornalismo teme aquilo que é seu fruto, mas devora não só esses frutos, como também a si próprio. Através disso, a mídia torna-se um simulacro autônomo e atemporal, intimamente ligado ao entretenimento, mesmo que essa não fosse sua “missão” inicial, onde as noções do real são aquelas deste real e paranóico “simulacro de verdades”, onde as ficções reais de cada um ligam-se às do outro, capazes de materializar o próprio Tártaro diante de nós, que engoliremos e com ele nos anestesiaremos até a saturação. O novo titã que talvez se veja, um dia, regurgitando em meio às gargalhadas o que devorou em razão do veneno de um de seus próprios filhos, ou então os matará definitivamente, vivendo só em meio ao Vazio de sua própria paranóia. De um jeito ou de outro, todos ficarão sabendo, pois somos, nós mesmos, todos titãs devoradores.

Marcus Vinicius Pilleggi

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