Olá a todos vocês. Mais uma vez, não preciso me alongar muito sobre o filme Mirrormask, uma vez que nosso caro amigo Marquinhos já lhes trouxe um post bastante sincero sobre o filme de Gaiman e McKean (aliás, aviso-lhe já: se quer entender este artigo, leia o do Marquinhos primeiro). Caso vocês não tenham notado, tenho também colocado meus posts sobre os dois artistas– primeiro sobre Coraline, livro de Gaiman e várias ilustrações de Dave McKean no Ao Sugo e, confesso, não é sem razão: sou fã incondicional destes dois que conseguem exprimir tão bem em seus dois meios de arte distintos (hum, aí já não sei se são distintos, tem gente que vê poesia em uma prancha de Chagall, uma pintura em uma música de Debussy e por aí vai… AH, mas você entendeu, oras).

Mas o que me traz aqui? Bem, entenda como uma espécie de adendo ou complemento ao artigo do Marquinhos, com algumas das minhas percepções sobre o filme Mirrormask (que, como já dito, de “Máscara da Ilusão” não tem nada) e que de certa forma também valem para as outras obras de Neil Gaiman como Sandman (que merecerá muito em breve uma série de artigos aqui no Ao Sugo) e também para os clássicos livros de Lewis Carroll, Alice In Wonderland e Alice Through The Looking-Glass, livros que tento, muito porcamente, tecer algumas reflexões talvez interessantes. Mas hoje a idéia é só te deixar um pouco assustado.

Para tanto, começo com um trecho de Through The Looking-Glass, mais especificamente sobre a conversa entre Tweedle-Dee e Tweedle-Doo com Alice sobre o sono do Rei Vermelho:

“Alice (…) calou-se, um tanto assustada, ao ouvir algo que lhe lembrava o resfolegar de uma locomotiva a vapor perto deles no bosque, embora temesse que, mais provavelmente, fosse um animal selvagem. ‘Há leões ou tigres por aqui?’ perguntou timidamente.

‘É só o Rei Vermelho roncando’, disse Tweedledee.

‘Venha ver!’ gritaram os irmãos. Cada um pegou uma das mãos de Alice e a levaram até onde o Rei dormia.

‘Não é uma visão encantadora?’ disse Tweedledoo.
Para ser sincera, Alice não podia concordar. O Rei usava uma touca de dormir vermelha e alta, com um pompom, estava encolhido como uma trouxa malajambrada e roncando alto… ‘Esse ronco é capaz de lhe arrancar a cabeça fora!’ comentou Tweedledoo.

‘Receio que pegue um resfriado, deitado assim no capim úmido’, disse Alice, que era uma menininha muito atenciosa.

‘Agora está sonhando’, observou Tweedledee. ‘Com que acha acha que ele sonha?’

Alice disse: ‘Isso ninguém pode saber.’

‘Ora, com você!’ Tweedledee exclamou, batendo palmas, triunfante. ‘E se parasse de sonhar com você, onde acha que você estaria?’

‘Onde estou agora, é claro’, respondeu Alice.

‘Não, não!’ Tweedledee retrucou, desdenhoso. ‘Não estaria em lugar algum. Ora, você é só uma espécie de coisa no sonho dele!’
‘Se o Rei acordasse’, acrescentou Tweedledoo, ‘você sumiria… puf!… exatamente como uma vela!’

‘Não sumiria!’ Alice exclamou indignada. ‘Além disso, se sou só uma espécie de coisa no sonho dele, gostaria de saber o que vocês são?’

‘Ditto, disse Tweedledoo.

“Ditto, ditto’, gritou Tweedledee.*”

O mesmo ocorre em Sandman #39 – Convergências, em que Marco Polo, ao deduzir que está sonhando, debate com os personagens do seu sonho sobre o fato dele estar sonhando, quando é surpreendido por Rustichello de Pizza que lhe diz: “não, não, você que faz parte do MEU sonho!”

Por que esta questão sobre sonhos nos assustam tanto? Já imaginou se o mesmo lhe ocorresse em algum dia qualquer? E se lhe dissessem agora, no mesmo instante em que lê este artigo, que na verdade tudo isto é um sonho? Calma, não se assustem: vocês não conseguirão responder esta pergunta, não ainda. Faz 255 anos que o bispo George Berkeley, filósofo irlandês, propôs de certa forma esta discussão ao dizer que a realidade está ligada diretamente à forma como apreendemos as coisas – nós não experimentamos (no sentido empiricista do termo) as coisas por elas mesmas, mas sim as sensações que temos ao percebê-las… Filosofia imaterialista, complexo, não?

Bem, num sonho, quando sonhamos com um lanche suculento, nós também não deixamos de perceber o feixe de sensações que o lanche nos traz: ficamos com água na boca, com fome e quando comemos, não existe lanche melhor até que quando acordamos nos lembramos vividamente sobre o quão fantástico era este lanche onírico (confessem, às vezes a gente fica até triste por ter acordado…). Pois bem, para Berkeley a realidade também pode ser vista da mesma maneira, já que experimentamos o mundo pelas sensações que as coisas nos trazem, logo, qual a diferença entre o sonho e a realidade?… Terrível não? Para cortar qualquer possibilidade de “relativismo” ou “subjetivismo” individualista – ou seja, acreditar que, já que tudo está na maneira como nossas mentes individuais percebem o mundo, então existiriam 1583, zilhões de maneiras de perceber a realidade – Berkeley propõe a existência de uma mente universal e superior à dos homens, a mente de Deus! Oras, então nesse sentido, seríamos todos “coisas” da mente de Deus? Assustador, não?

Talvez por isso que filmes como Matrix ou A Viagem de Chihiro, Mirrormask, Laberinto del Fauno ou os livros da Alice, Coraline, Neverwhere ou mesmo Sandman são tidos às vezes como geniais, afinal seus autores (se bem que tenho sérias críticas ao Matrix… algum dia eu conto…) possuem mesmo a capacidade – genial – de brincar com a realidade, ou melhor, com as realidades, oníricas, fantasiosas, “reais”, como você quiser chamar.

Assim, não precisa prestar MAIS atenção quando for ver Mirrormask (porque lhe digo, se você não for assistir este filme depois dos nossos dois artigos, o meu e o do Marquinhos, hum, que pena…), apenas assista. Se vocês ficarem chocados/as ou incomodados/as com o desconforto de Helena ao se questionar se está num sonho, se tudo isto é um sonho ou se ela está no sonho de alguém, bem, atingi meu objetivo, rs.

* CARROLL, Lewis. Alice – Edição Comentada, Introdução e Notas de Martin Gardner, Jorge Zahar Editora, Rio de Janeiro, 2002. (Gardner também aponta a mesma discussão sobre a filosofia imaterialista de Berkeley; caso esteja curioso, sugiro O Mundo de Sofia, não para ficar craque nisso, mas para ficar mais curioso ainda, rs)

Victor Hugo, sonhando acordado

Continue pensando:

Mirrormask [review do filme]

As Máscaras de Mirrormask [discussão com Antropologia]

Victor Hugo Kebbe

Nerd, Antropólogo Japanologista, Bibliotecário do Novo Canon e do Velho Universo Expandido de Star Wars, Dragonborn, Witcher, Vault Hunter, exímio piloto de A-Wing, combatendo os Geth e Reapers até os dias de hoje.

5 comentários »

  1. Sonho? Realidade? Truman Show? Matrix? Quem já não se sentiu vigiado, comandado como se fosse uma peça de um jogo? O que é real e o que é imaginário às vezes tem uma linha muito tênue como separação.
    Até hoje não sabemos a origem do universo – não estou falando de Big Bang, ou de como evoluímos para chegar até os dias de hoje, mas estou falando do porque tudo começou. Do vácuo, pequenas partículas surgem, e dão origem a tudo. Qual o propósito?
    Como explicar o porque de estarmos vivos, de encontrarmos em nossas vidas determinadas pessoas, de trabalhar nesse lugar ou naquele, de morar numa determinada ciadde, em um determinado país?Criamos histórias, na tentativa de entender coisas que, à primeira vista (às vezes à segunda, à terceira..) não fazem sentido, ou que parecem mágica, ou como tudo se encaixa perfeitamente no tempo certo, na medida certa, ou até mesmo o caos. E para tentar extravasar a nóia humana, surgem mundos paralelos, onde tudo é explicado, onde tudo faz sentido. Um mundo à parte, onde tudo pode acontecer, onde há uma lógica própria, e tudo funciona dentro dessa lógica, sem maiores segredos. Isso pode acontecer na história de Alice, em Matrix, em Truman Show… ou até mesmo ao acordar e olhar para o espelho pela manhã…

  2. Poís é,…..isso só prova q as ilusões criadas pelo ser humano para colocar significado nas relações sócias q vive, só tem sentido perante ele mesmo. Em frente ao Universo em si, isso não tem o menor valor. Talvez o objetivo seja chegar a um relativo nada.
    E o mais interessante é q consideramos inteligentes, aqueles q tem a capacidade de enxergar maior significado em pequenas coisas. E assim, criar um “novo universo”. Única qualidade do ser humano, único alívio para disfarçar a nossa própria incapacidade perante tudo. Somos apenas ótimos criadores de ilusões

  3. Vic!!!!
    Muito legal esse artigo!
    Gostei…
    E como vc fechou falando do Mundo de Sofia, tem uma passagem que o Gaarder fala que um fisoloso chines de 400 aC disse uma vez : “essa noite sonhei que era uma borboleta…. ou será que sou uma borboleta sonhando ser homem?”
    Não me lembro o nome desse filósofo agora… mas é um famosão
    hauhauhauhaua
    Os chineses são fodas, ja pensavam nesses troços todos antes mesmo da europa estar “civilizadamente” formada, e por consequencia o pensamento ocidental…
    hahahahahaha

    Beijos!
    PS: achei no google o nome do carinha da borboleta: Chuang Tzu

  4. Será que teremos mais surpresas nesse mundo em que vivemos? Fico pensando que se surgirão coisas ainda mais surpreendentes que todas essas reflexões sobre mundos, realidades, sonhos…
    Mirrormask realmente é uma grande obra de arte que Dave Mckean em movimento, com um ótimo roteiro.

    Veremos filmes, livros, etc nesse nível novamente?

    • Sabe Ernesto,

      Acredito que sim, pois esse tipo de produção não para.Nunca parou na verdade… O verdadeiro problema é que apenas resvalam no mainstream e não conseguem um espaço justo. Eu sinceramente fico surpreso em saber que Sandman, por exemplo, foi um sucesso de vendas na época, pois.. convenhamos… o mainstream nunca me pareceu muito inteligente. Basta ver 9 dos 10 filmes que saem hoje em Hollywood para sabermos o que a grande maioria do público quer.

      Contudo e, mesmo sendo obras de nicho, daquelas que ficam esquecidas nas prateleiras até alguém descobrir e revelar para os amigos (ou até mesmo virar uma descoberta tardia, póstuma, etc), essas coisas continuam sendo produzidas e feitas, é só caçar por aí. Muito felizmente boa parte de quem produz essas coisas não está preocupada em ficar ziliardária com o mainstream, mas apenas fazer arte. Não?

      Abração,

      VHK

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