A Princesa Moanna, do Reino Subterrâneo, era sempre curiosa quanto ao mundo superior. Mas seu pai, o Rei, sempre dizia que ela não poderia subir. Levou muito tempo até que ela finalmente conseguisse escapar. Lá no alto, porém, ela perdeu sua natureza encantada e tornou-se mortal, esquecendo-se que fora uma princesa um dia. Desde então, os habitantes do Reino Subterrâneo têm esperado o seu retorno num corpo de um mortal. É esta breve estória, narrada pela voz de uma menina, que abre esta espetacular obra do cinema espanhol.

O enredo subseqüente é o seguinte: Espanha, 1944. A Guerra Civil acabou de terminar.Uma menina, Ofélia, de 10 anos, está se mudando com a mãe grávida para um povoado numa região rural espanhola. Lá, ficará junto com o padrasto, um cruel capitão do exército de Franco. A menina, leitora assídua de estórias fantásticas, nutre pouca afeição pelo capitão e, além da mãe, a única que consegue lhe dar um pouco de conforto ali é Mercedes, a governanta-chefe do casarão. Nas redondezas, Ofélia encontra um antiqüíssimo labirinto. Mais tarde, seguindo uma criatura curiosa que ela está convencida ser uma fada, encontra um indivíduo curioso, que se diz um fauno, e a chama de Princesa Moanna. O fauno diz que eles estão esperando o retorno da princesa, e que ela precisa executar 3 tarefas antes da próxima lua cheia, para que assim possa retornar ao seu reino. Enquanto isso acontece a luta dos rebeldes ao fascismo franquista e, em sua perigosa aventura particular, Ofélia pode aliviar as dores do “mundo real”.

Uma obra-prima relevando a simplicidade de um conto de fadas. Talvez esta seja uma boa definição do filme de Guillermo del Toro. Não há motivos para preconceitos, contudo: os contos de fadas nunca foram associados necessariamente ao infantil. Na realidade, no passado, estas estórias povoadas por magia e mitologia eram muitas vezes aterradoras, mesmo que, ao final, exista um otimismo secreto escondido nas sombras de um pensamento. Por macabros que fossem, sempre existia uma fagulha de esperança.

A palavra “fada” vem do latim “fatum”, que significa destino. Assim, através de sua natureza encantada, as fadas influenciam o destino das pessoas. E é bem este que parece ser o eixo norteador da película de Del Toro. Com o respaldo de um conto de fadas, o diretor demonstra sua importância não só para uma criança, mas para todos. Discute de maneira bela e figurada a importância da manutenção da inocência, da capacidade de fantasiar e da imaginação. De certo modo, remete à raiz ideológica da palavra fada, e ilustra sua importância para nossos destinos. A mediação entre a jornada fantástica de Ofélia e o cruel embate entre rebeldes e franquistas, assim como os problemas enfrentados no casarão, garante ao filme uma beleza melancólica de uma sensibilidade ímpar. Outra faceta interessante do filme é que em nenhum momento é dito com clareza que aquilo pelo que Ofélia está passando é “real”, no sentido mais cru da palavra. Existem evidências para as duas teorias: de que “acontece mesmo” e de que é só “coisa da cabeça dela”. Não obstante, é relevante, acho eu, que aquilo tudo aconteceu para ela. Isto é o mais importante.

Guillermo del Toro mistura no real e fantástico os elementos de uma boa fantasia: vilões, mocinhos, ideologias, lágrimas e tragédias. O filme é triste, poderiam dizer. E talvez o seja. Mas possui também o essencial de uma boa fantasia: a esperança. A possibilidade de que os sofrimentos e provações não tenham sido em vão e até mesmo a idéia de que, ao final, as coisas realmente tenham dado certo.Nem que seja para nos garantir um deitar no eterno sono com um sorriso nos lábios. Delicado e perene. Graciosamente infortunado.

Marcus Vinicius Pilleggi

5 comentários »

  1. Achei seu texto “daqui, ó”!

    Tinha visto ele aqui no blog, mas não tinha tido tempo de lê-lo com a devida a tenção. E, nossa. Teve umas 2 passagens do seu texto que eu li agora que chega a dar medo de como temos opiniões semelhantes!! rsrs

    Gostei muito das partes em que vc faz as elucidações sobre o tema “conto-de-fadas”, vc fala coisas que eu, como amante leiga do assunto, não sabia e gostei de saber.

  2. Filme incrível! Todos os adultos deveriam assistir a esse filme, pois apesar de ser um filme de fábula, conhecida comumente por seu apelo infantil, tem uma abordagem adulta e cenas bem fortes. Fui ao cinema curioso para ver essa obra, pois a temática da guerra da espanha, não mostrando bombas e explosões misturado com fábulas me atraiu. Esperava ver um filme bom e só, mas Labirinto do Fauno é um filme fabuloso. Lindo em sua proposta. Para mim, o labirinto tem muito a ver com “O ano em que meus pais sairam de férias”, outro filme maravilhoso, já que ambos os filmes apresentam a visão de uma criança com relação a ditaturas. Del Toro que tem um pé nos filmes Trash e é seguidor assíduo da religião cristão, consegue conciliar essas duas coisas de forma tão harmoniosa que somente quem sabe desse passado dele nota esta influência no filme, pois não é algo escrachado como acontecem em filmes como Matrix Revolutions e tantos outros. Sem mais delongas, O Labirinto do Fauno é imperdível!!

  3. Esse filme, apesar de conter cenas fortes de violência, consegue em seu interior, atrair a atenção da platéia com seu enredo maravilhoso. Eu recomendo.

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