Acreditem, o meu Neverending Story finalmente chegou. Possui 445 páginas, com ilustrações e tudo mais, mas ainda não poderei começar a leitura. Por quê? Bem, talvez isso destrua a minha imagem perante muitas pessoas e até mesmo leitores do Ao Sugo, mas, rs, não dá: estou terminando de ler só agora o Harry Potter and The Deathly Hallows. Ganhei o livro em setembro do ano passado da minha mãe, mas estive tão atolado de coisas para fazer para a universidade que não pude ler naquele momento. Em todo caso, futuramente eu retorno para comentar o último livro (último mesmo? Ao que parece, JK Rowling já admitiu a possibilidade de continuar a escrever, mesmo estando mais rica que a rainha da Inglaterra).

Desviei-me do assunto. Não vim tampouco para comentar o The Neverending Story por razões óbvias, mas vim discutir sobre contos de fadas, fantasia e tudo mais. Apesar de parecer um artigo pretensioso, queria apenas abrir a discussão (logo, espero muitos comentários de vocês) sobre a idéia da “moral da história“, sem encerrar o artigo totalmente. Dito isto, gostaria mesmo que o leitor encarasse este texto como um ensaio, não no sentido literal/acadêmico do formato do texto ou da escrita, mas no sentido que estamos “ensaiando”, praticando, refletindo sobre a argumentação e, se possível, trouxesse novas idéias para artigos futuros.

Todo mundo já ouviu a célebre frase “então a moral da história é…”, expressão que ouvia desde criança quando lia contos de fadas, hoje presente no senso comum e usada amplamente em vários níveis. Desde muito pequeno já tinha um contato imenso com os contos de fadas dos Grimm e por aí vai, então não é à toa o meu gosto pelo gênero, sendo que até os dias de hoje ainda me surpreendo com algumas estórias que ouvia quando criança. Foi um tremendo baque quando eu li sobre as origens da história da Chapeuzinho Vermelho, em como a estória original era muito, mas muito mais assustadora do que aquele papo do docinho para a vovozinha. Mas fomos crescendo e ouvindo por aí que os contos de fadas e o gênero fantástico eram na verdade estórias que, por possuir algum tipo de ingrediente moral – a moral da história – seriam contos para crianças, textos educativos cujo objetivo era meramente educar e preparar estas crianças com valores sociais importantes para a nossa sociedade… Estórias para crianças… BAH!

De qualquer maneira, é evidente que estes contos de fadas são inexoravelmente presos à vida do seu escritor, independentemente se ele queria criar um mundo fantástico novo e avesso à nossa realidade. Apesar de Tolkien ser bastante enfático na apresentação de “O Senhor dos Anéis” de que o livro não pode ser interpretado como alegoria ou espelho imediato da sociedade ocidental da época em que foi escrito, é óbvio que vários valores foram incutidos em seu texto. Desse modo, apesar de não ser uma alegoria com eventos históricos reais, vários estudiosos, como Patrick Curry, Tom Shippey, Chris Upton e Humphrey Carpenter reconhecem que as idéias de “Esperança-aonde-não-pode-haver-quase-mais-esperança”, “Coragem” e “Heroísmo” são recorrentes na história de Frodo, idéias que de certo modo são valorizadas pela nossa sociedade até os dias de hoje. Embora Tolkien tenha enfatizado veementemente que escreveu sem nenhuma intenção de fazer com que os leitores tirassem uma interpretação específica, não é possível negar que estes temas, bastante abstratos, são fruto de sua própria biografia pessoal, enquanto adorador de mitologia e sagas heróicas quando participou do grupo de discussão “Inklings” em Oxford.

C.S. Lewis, amigo de Tolkien, membro do “Inklings” e criador de “As Crônicas de Nárnia” utiliza estes temas abstratos de maneira bastante específica, criando uma “moral da história” particular, agora cristã. Baseando-se em histórias das mitologias Greco-Romana e Irlandesa, C.S. Lewis se volta para o leitor mais jovem, com um livro repleto de alusões aos valores cristãos, o que Philip Pullmann critica ferozmente enquanto uma descarada propaganda religiosa. Não podemos esquecer dos ingredientes fantásticos dos sete livros que compõem de fato “As Crônicas de Nárnia”, como a idéia do Guarda Roupa de “O Leão, A Feiticeira e o Guarda Roupa”, este que se abre para uma floresta coberta de neve em Nárnia… qual não é a criança que não sonha, ao abrir a porta de um armário bastante sem graça em casa, ser conduzido para um mundo fantástico?

Já que citei Philip Pullmann, não podemos deixar de esquecer a sua contribuição aos contos fantásticos com a trilogia His Dark Materials, composta por The Nothern Lights, The Subtle Knife e The Amber Spyglass, produzida há pouco para o cinema pela New Line. Envolto nas mesmas idéias que valorizamos socialmente (e que obviamente também foram percebidas por Tolkien e Lewis de maneiras diferentes), Pullmann aproveita para fazer uma crítica à Nárnia e cria uma “moral da história” diferente e mais pesada. Acreditem, “Esperança-aonde-não-pode-haver-quase-mais-esperança”, “Coragem” e “Heroísmo” estão, é claro, presentes nos livros de Pullmann, contudo, agora dentro de uma crítica bastante severa à Igreja católica e a algumas formas de governo, como o Estado Totalitário que mina a idéia de liberdade de expressão. Para os que já assistiram ou leram The Nothern Lights, traduzido aqui como “A Bússola de Ouro”, quem não ficou horrorizado com o Magistrado – uma instituição política secular detentora da “verdade” – que caça aqueles que contestam o poder, até mesmo enviando crianças para campos de concentração para aprenderem, desde cedo, os moldes impostos pela instituição?

Falei bastante hoje e não encerrei o assunto, evidentemente. Mas espero através dos seus comentários novas interpretações sobre o assunto, essa foi a moral da história de hoje. Enquanto isso, voltarei ao meu quarto para tentar encontrar aquela floresta nevada que uma vez eu vi dentro do armário.

Victor Hugo

Imagem por Dave McKean

Gostaria de agradecer ao meu amigo Marcelo Fetz pelas valiosas impressões que têm dado aos meus dois últimos textos.

Importante: Este texto é uma continuação do post Phantásien aqui do Ao Sugo.

Victor Hugo Kebbe

Nerd, Antropólogo Japanologista, Bibliotecário do Novo Canon e do Velho Universo Expandido de Star Wars, Dragonborn, Witcher, Vault Hunter, exímio piloto de A-Wing, combatendo os Geth e Reapers até os dias de hoje.

4 comentários »

  1. Huahauhauahu. Vitão, vc não abordou a possibilidade dessa galera usar muita drogra!! Afinal, kkkkkkkkkkk, as drogas são a origem de tudo! Inclusive da floresta nevada que uma vez eu também vi dentro do armário.

  2. É, intencionalmente ou não, sempre que alguém escreve um livro (mesmo que não seja um conto-de-fadas) vai acabar deixando alí o que acredita, os seus valores morais e, consequentemente, uma “moral da história”. Sempre.

    (ps: Sobre o Harry Potter, não deixe de dizer o que vc achou do último livro qdo terminar. Eu amei, mas muita gente se decepcionou e tal.)

  3. Boas reflexões.

    É, acho que procuramos sempre alguma moral em alguma coisa que lemos. Não que vá haver, ou que o autor teve essa intenção, mas a gente tenta se identificar com alguma coisa e tenta tomar um exemplo do que lemos.

    Gostei do texto.

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