Olá mais uma vez! Hoje começarei um tópico bastante inicial que espero prosseguir futuramente, assim como o Marcus vai querer também participar da empreitada. Devo avisar-lhes da minha motivação principal (e que foi certamente uma das razões por eu ter aberto este blog): soube há poucos minutos que um livro que comprei pela internet já está nos Correios da minha cidade. O livro (e espero que o Marcus comente aqui, assim como vários outros leitores do Ao Sugo que entendem um pouco mais do que eu sobre a obra) é velho, bastante velho, de Michael Ende e publicado originalmente em 1979 na Alemanha como Die Unendliche Geschichte Não entendeu nada? Pareceu alemão para você também? Bom, em inglês: The Neverending Story e em português, caso lhe refresque a memória, A História Sem Fim.

Óbvio que não irei discutir este livro agora, pois nem li e embora tenha assistido aos filmes, não gostei das produções para o cinema (confesso que tenho grandes expectativas quanto ao livro original)… o seriado de TV não parece muito bom também… Mas queria apenas abrir a questão da fantasia (sim, também o nome da terra encantada de A História sem Fim), um gênero literário/cinematográfico/whatever que, apesar de possuir fãs ardorosos, é visto por muitos com uma reticência que considero extremamente desnecessária.

Se nossas mentes fossem como tábulas rasas ao nascer, como assim imaginavam alguns filósofos empiricistas britânicos, um bebê seria aquele que ficaria mais chocado com a realidade, ok, pelo menos nas suas primeiras experiências de vida. Ele acorda, olha para o teto e vê um móbile (mas ele nem sabe o que é um móbile) de aviõezinhos (mas ele nem sabe o que é um avião) coloridos (mas ele nem sabe dar nomes às cores). Naquele momento, interstício de tempo que poderia durar algumas horas antes dele se sentir confortável com o brinquedo (e depois se cansar e começar a chorar intermitentemente), aquilo seria um espetáculo, um simples móbile, um espetáculo. Por quê? Bom, façam um esforço: pela primeira vez ele viu um móbile! Se você já parou para pensar, provavelmente nos sentimos da mesma maneira com a maioria das nossas primeiras experiências, seja com o melhor sorvete de chocolate do mundo, a televisão, o livro, um jogo, qualquer coisa!

Aí o tempo vai passando e vamos envelhecendo. As primeiras experiências já não são mais tão engraçadas, sem contar que já vimos muita coisa fantástica para nos impressionarmos como antes. Andamos na rua, vemos um arbustozinho nascendo no meio do nada e sem razão nenhuma, mas pra gente, hum, é apenas mais um arbusto. Nada de tão fantástico. Já tomamos tantos sorvetes de chocolate que temos o luxo de poder falar se este estava tão bom quanto aquele de 1955 ou algo parecido… Hum, pensando em tudo isso, ah, triste, não?

Já escutei por várias vezes algumas pessoas dizendo que quando lê algum livro ou vê algum filme, prefere como tema  “a realidade”, nada de ficção, fantasia, nada disso. Preferem talvez um suspense que se passa em uma cidade parecida com a que você vive, com personagens que se vestem da mesma maneira que você e que falam e possuem os mesmos trejeitos de todo mundo ao seu redor. Isso é o que chamam de realidade. Ok, também gosto deste gênero, muitas vezes bastante previsível (ora, num filme de suspense, apesar da tensão toda, nós sabemos mais ou menos qual será o desenrolar da história, quais portas serão abertas e quais personagens, por mais cativantes que tenham sido até aquele momento morrerão de algum jeito bem horrível, porém “real”…), afinal, já estamos velhos, passamos pelas mesmas experiências inúmeras vezes, vimos de tudo! É só ver mais um filme desses, ué.

De certo modo, acho triste que algumas pessoas pensem assim, muitas que se aferram aos movimentos intelectualóides do momento (questão curiosa, já que são sempre atualizações de movimentos intelectualóides antigos, vide “haute culture” francesa versuscults” de hoje…). Como é sabido por todos, tais movimentos excluem a grande maioria da população de seus brainstorms requintados, sofisticados, exclusivos e quase sempre pragmáticos. Tais características compõem os principais discursos destes grupinhos “especiais”, que inventam e vomitam todo tipo de termos para os excluídos, desde o tradicional “massas” até ao mais problemático “alienados”, movimentos que se preocupam com questões pseudo-filosóficas de – para eles – “importância para compreendermos o próprio pensamento humano”, seja o “homem moderno”, seja a “pós-modernidade”, etc. Assim, ao ocuparem seus neurônios com tantas questões capciosas (e muitas vezes falsas), esquecem do nosso brinquedinho humano mais divertido e que todo mundo aqui possui (com exceção dos roteiristas de LOST): a capacidade criativa, o exercício da imaginação. Por que não se deixar levar pelos primeiros sustos das nossas experiências… de novo? Somos terrivelmente saudosistas e nostálgicos quanto ao nosso passado e à nossa vida maravilhosa e perfeita de antigamente, então, qual é o medo? Bem, é por isso que muitos se refugiam por algumas horas na fantasia, buscando se surpreender e lembrar que existem outros mundos que não são ou nunca foram pragmáticos ou “realistas” demais.

Esta é a minha explicação e já concordo que existem pessoas com outras opiniões sobre o gênero. Quando vou atrás de um livro ou filme destes, é porque de fato gostaria de me surpreender. Quero sim ver cavalos com asas voando por aí, tritões, medusas, reinos encantados, mundos de magia e, por que não, sonhos futurísticos sobre nós mesmos? Alguém pode me dizer da imaterialidade dessas coisas ou mesmo aquela frase célebre (e irritante/revoltante) “isso não vai te levar a lugar algum” mas, por que não encontrar em um sonho perdido de alguém um reino fantástico pronto para ser descoberto?

Não tenho nem como terminar a discussão, papo que espero que seja sem fim mesmo. Mas para não deixar o leitor na mão, em Sandman, de Neil Gaiman, o Senhor dos Sonhos possui em seu palácio uma vasta biblioteca de  sonhos nossos nunca sonhados, contos nossos nunca contados e até mesmo grandes aventuras nossas nunca antes passadas para o papel, tudo sob o olhar cuidadoso do bibliotecário Lucien. Acredito que as pessoas que se interessam pelo gênero da Fantasia, dos contos fantásticos e tudo mais, sempre que dormem, procuram em seus sonhos arrombar a porta dessa biblioteca e ler alguma história dessas, talvez na esperança de acordar e ver o mundo de um jeito novo… de novo, não é mesmo?

Victor Hugo

Gostou? Leia mais sobre este tema no Ao Sugo: Em defesa do inútil sobre dragões e sonho!

Victor Hugo Kebbe

Nerd, Antropólogo Japanologista, Bibliotecário do Novo Canon e do Velho Universo Expandido de Star Wars, Dragonborn, Witcher, Vault Hunter, exímio piloto de A-Wing, combatendo os Geth e Reapers até os dias de hoje.

9 comentários »

  1. Victor!
    Uia!
    Gostei mesmo desse seu texto!
    Nossa, me deu até vontade de assistir a trilogia sem fim de novo!
    Atreioooooooooo
    hahahahahaha
    E de ler Peter Pan, e assistir Em busca da terra do Nunca e Para Sempre Cinderella, e Alice no Pais das Maravilhas…
    Todas essas obras com sabor de infancia, que bem ou mal, nos dão asas, nos libertando assim das grades cartesianas e padronizadas, mesmo que sejam apenas (será?) as asas da imaginação!

    Beijos!

  2. Adorei o texto! Muitas vezes nos esquecemos que um dia fomos crianças, e que ainda guardamos dentro de nós essa essência infantil, de ir atrás do novo, do encantado, da fantasia.
    Esquecemo-nos que precisamos dos sonhos para melhorarmos, para tornar o sorvete de chocolate (como vc mesmo deu o exemplo), o sorvete mais maravilhoso do mundo naquele momento (por causa da companhia, do lugar em que se está, porque aquele dia foi especial de alguma forma). Ok!
    Preciso escrever no meu blog agora!!!

  3. Do seu post anterior: “existem os e-books, que você baixa para ler no micro e fica cego depois que terminou” –> quase caí da cadeira de tanto rir.

    Bom, não suporto e-books, sou do tipo de pessoa que precisa estar com o livro na mão pra onde quer que vá, na esperança de ter um tempinho de ler mais um pedacinho do livro. E meu gênero preferido de leitura é, sem dúvida, a fantasia. Miacabo de ler quando estou com algo como ‘Senhor dos Anéis’ nas mãos. Hum, exemplo errado, fora outros títulos do Tolkien, ainda não li nada comparável a ‘Senhor dos Anéis’…

    Ainda não li ‘História sem Fim’, e um dos motivos atualmente é a citada falta de dindim pra comprar um – pq eu sei que existem bibliotecas, mas eu tb sou do tipo de pessoa que PRECISA ter o livro.

    (q comentário imenso)

  4. Gostei mto desse seu texto! Realmente esquecemos de viver e/ou trazer um pouco de fantasia pro nosso dia-a-dia, o por quê eu não sei te dizer às vezes sou realista demais, confesso! Mas vou pensar sobre e fantasiar um pouco agora… depois te digo!Rs

    Bjos

  5. Esta perda da inocência é, as vezes, difícil de ser lidada. Percebi isto enquanto li alguns contos do Lovecraft, até fiz este post sobre este assunto.Gostaria de conseguir ser surpreendido mais vezes. E quanto mais velhos ficamos, isso se torna mais difícil de ocorrer, ser surpreendido.

  6. Victor,

    Adorei o texto, apesar de confessar que sou um pouco saudosistas, mas esse texto não falou que é errado ser e sim que é necessário olhar e viver a vida com mais fantasias…Esperar pelo imprevísivel e poder ter grandes supresas sempre, pois a mesmice é chata rs

    Beijinhos…

  7. É, é o que eu penso.

    Condicionados ou a apreciar apenas “realismos” ou a “fantasia aprovada” pela grande mídia ou “grandes intelectuais”.

    Toda e qualquer literatura é ficção; mas os caras aceitam só ficção “realista”.

    Todos nos alimentamos de ficção todos os dias. Todos os dias.

    Só que ficção ‘ficção demais’ é considerada “fantasia” – e todos sabem que “fantasia é coisa de criança”.

    Não vejo solução a não ser continuar escrevendo e insistindo em literaturas “fantásticas” cada vez mais consistentes e com maior qualidade, para calar esses preconceitos idiotas.

    • Thank you for your comment, we’re glad to know the you are enjoying our blog. If you liked this post, maybe you will find useful our section entitled Ithildin.

      Best,

      Victor Hugo

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