A crítica que você possivelmente não entendeu

Numumba – Desgraças ridículas de ridículos desgraçados

Ora, as crianças do kimbo Nanba também se divertiam com jogos, a toka é um dos  mais tradicionais: a molecada se reúne, a bolinha de espigas de milho é lançada ao ar, quem a deixar cair toma bofetadas e safanões nas costas. Algumas crianças eram muito habilidosas nesse joguinho – da mesma forma que Numumba demonstrava grande aptidão em golpear com a cara os punhos dos rapazes que o forçavam a jogar toka; obviamente, Nolom também era especialista em sangrar e beijar o chão – sorria nervoso a cada chute que tomava na bunda. A garotada simplesmente adorava a dupla Numumba e Nolom, Banha de Elefante e Olhos Tortos, insuperáveis como alvos de chacotas e toda espécie de brincadeira estúpida – pois afinal, você sempre descontará suas idiotices no idiota mais fraco ao seu lado, não é isso? Numumba e Nolom só confessavam seus desprazeres como sacos de pancada na presença um do outro, então, os caras até que foram gentis hoje, foi só um chute de cada um, geralmente me chutam mais, também me roubaram alguns bonequinhos que eu estava fazendo, pelo menos vão se divertir um bocado, não é ótimo?, riso patético de Nolom, mas Nolom, disse Numumba numa careta contrariada, você adora esses bonecos, eles não deveriam fazer isso, não deveriam, não entendo, respondeu Nolom, mas eles também não deviam te bater tanto porque alguém colocou o pé pra você cair, e então?, é, não deveriam, que coisa, é, que coisa, os dois ficaram em silêncio por um tempo, olhando pro nada, as de súbito, as imagens daquela tarde chuvosa invadem os pensamentos de Numumba, não ia contar acerca do pigmeu ao Nolom?, aliás, o que foi aquilo afinal?, não entendeu nada – nunca presta atenção àquilo que chamam de “vida real”, não é isso, Numumba?, porque você odeia praticidade e objetividade, mundo real, o que diabos é isso?, ser eficiente e trabalhador, afinal, ser respeitoso, para quem e por quê?, e o pigmeu daquela tarde, pigmeu, nunca tinha visto,  um homem pequenino, mais parecia um espírito sinistro com dentes de fera, a lança do Nobombo bem no meio dos olhos, balançava o pigmeu que nem um bicho no espeto, nem com um animal se faz isso, não pode contar pro Nolom senão vão te matar!, seu gordo miserável, é isso que você é, um gordo punheteiro e ridículo, com cabelo de arbusto ainda por cima!, por que não arruma essa merda de cabelo?, todos os caras capricham nos penteados, tranças mirabolantes ornadas com penas de monstros que você nunca matará, coques das moças enfeitados com sementes que você jamais achará, as meninas todas acariciam as tranças do Nabonga, enrolam-nas nos dedos, parecem macias e bem cuidadas, cheirosas com perfumes de kokula, flores raras raras, você só consegue uma dessas em sonho, se sair do kimbo e enfrentar os perigos do mundo além da Linha, aquela mesma riscada ao redor das aldeias, a Linha que separa nosso mundo do mundo das bestas, e bestas sangrentas perambulam pelas paragens em que nascem as belas kokulas, por isso o Nabonga exala a arrogância que tanto seduz as raparigas, o cheiro que você, seu gordo estúpido, nunca será!, gostaria de um cafuné, Numumba?, longe da fragrância brilhante de bravuras e feitos heróicos, só o fedor cinzento da estagnação e derrota, então ninguém, ninguém chegará perto desse emaranhado aí no topo da sua cabeça, um emaranhado maltratado de fios sebosamente fracassados, nem se dá o trabalho de lavar, pra quê não é?, as garotas nem sabem que você existe…, só que, se fedido continuar, perto perto jamais chegarão, e jamais terá seu sonhado cafuné, só sonha com essas idiotices, carências acumuladas pelas lágrimas sempre interrompidas, mesmo quando os moleques te jogam de cara no chão e esfregam sua cara na lama nojenta, sempre sempre, uma coisa gorda que fede a suor com um arbusto que fede a bosta, é isso que você é, seu merda, seu lixo!, Numumba!, o que foi?, perguntava Nolom, hã?, respondeu assustado Numumba, n-nada nada!, balbuciou pateticamente, eu hein, disse Nolom, mas então, olha só, você sabia dessa?, entusiasmou-se o magricela de olhos tortos, o moru-ngou atacou outra vez!, caramba, onde?, perguntou  Numumba, lá no kimbo Gomba, ouvi dizer, sonhei com um moru-ngou esses dias, disse Numumba, eu queria estar lá pra ver, continuou Nolom sem prestar muita atenção, você tinha de ver, você tinha de ver!, e Nolom começa a narrar como se lá no kimbo Gomba houvesse estado, com a pata ele fez um rasgo na realidade, entrou nesta dimensão, era bem grande!, olhos vermelhos, pele pálida, todo coberto de chifres negros, nossa!, um espírito maligno capaz de se deslocar entre as dimensões!, Numumba gritou, e os outros moleques imediatamente olharam feio pros dois, Numumba já se encolhia, Nolom nem percebia, se empolgava consigo mesmo e seus relatos, é sim!, é um tipo perigoso, pode aparecer de surpresa, imagina se nós dois tivéssemos esse poder, poderíamos fugir daqueles moleques babacas!, e Numumba olhava nervoso pros lados, será que o Nolom podia falar mais baixo, os moleques já odeiam quando conversamos sobre essas besteiras, eu queria ser capaz de voar e sumir daqui!, essa última frase Numumba acabou sussurrando, Nolom ouviu, caramba, poder voar seria demais!, exclamou o magricela, voar que nem os guerreiros-feiticeiros da tribo de Kalumba!, Numumba sorriu amarelo, mas Nolom continuava, ih!, mas você nem sabe, havia um Kalumba lá!, mentiroso!, exclamou um Numumba novamente entusiasmado, juro que é verdade, disse Nolom, um guerreiro-feiticeiro da tribo de Kalumba, alto e de olhos brilhantes, você tinha de ver, tinha de ver!, as pessoas corriam apavoradas do moru-ngou, o guerreiro-feiticeiro veio voando, pousou entre as pessoas e a criatura, apontou sua lança flamejante para o monstro, bradou: “Desapareça de minha vista, espírito do mal, ou serás aniquilado pelo meu poder!”, e Nolom empostava a voz na sua patética representação, já bêbado de empolgação, balançava os bracinhos, eram finos como cipós, enquanto Numumba voltava à realidade e começava a suar gelado por chamar atenção desnecessária, como se fosse um criminoso sussurrando assuntos proibidos à luz do dia, e Nolom sequer se dava ao trabalho de notar, continuava animadíssimo, você tinha de ver, o moru-ngou deu o bote e no ar atirou seus chifres negros! mas o guerreiro-feiticeiro em instantes criou um escudo de fogo para se proteger e com um só golpe certeiro perfurou o tronco da besta! o monstro se debatia espetado na lança o guerreiro de Kalumba gritou uma palavra de poder e transformou a besta em cinzas num só instante – com as duas mãos encostadas na boca Nolom reproduzia o som de algo sendo queimado –, uau!, exclamou Numumba, novamente envolvido no relato do amigo, e dessa forma aqueles dois se mergulhavam em suas imaginações ingênuas de heróis e monstros e se esqueciam de suas ridículas desgraças de adolescente; até uma bolinha de espiga de milho acertar a cabeça de Nolom, Numumba vê a bolinha cair no chão, e antes mesmo que fosse capaz de sentir algum desespero já estava sob uma chuva de socos e pontapés. Nolom já sangrava o chão e sequer teve tempo de entender o que estava acontecendo.

Fábio Cabral, especial para o Ao Sugo

Você perdeu a entrada triunfal do nosso heroi Numumba? Atualize-se imediatamente lendo o primeiro conto de Fábio Cabral para o Ao Sugo, Numumba, O Heroi. Leia agora mesmo a continuação, Numumba, Quero fechar os olhos para sempre.

2 Respostas

  1. Muito bom gostei d+

    02/07/2010 às 00:21

  2. Como sempre Kabral escrevendo maravilhosamente bem. Ele sabe que eu adoro o Numumba.

    E legal o Ao Sugo dar oportunidade dos ótimos textos dele serem publicados no blog mais elagante que conhecemos ;D

    02/07/2010 às 00:53

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