A crítica que você possivelmente não entendeu

Numumba – Um sonho para cada pesadelo

Para cada sonho há um pesadelo correspondente.

Da mesma forma que a luz se esparrama para preencher os cantos escuros da alma, as sombras se espalham nos recônditos onde a luz não alcança. E quem pode imaginar o lodo de escuridão que se avoluma naqueles que, em silêncio, suportam as ofensas, as dores, as frustrações?

Numumba acorda gritando após mais um sonho conturbado – ora, qualquer um teria pesadelos após ter a cubata invadida por um pigmeu raivoso de presas, não é mesmo? Cala a boca, seu moleque!, Acordo cedo amanhã pra treinar, porra!, grita o papai, cala boca você, seu inútil, se mijou por que, ficou com medo dos gritinhos do seu filho?, Seu paspalho!, papai e mamãe se consumindo na berraria, Numumba se levanta, já está lá fora, olha para as estrelas; implora por algum sinal, algum conforto. Mas elas não parecem lhe dispensar muita atenção.

É sempre possível controlar a própria imaginação, na qual é o Grande Herói Numumba, Caçador de Omakakulas e Pegador de Nilimbas; todavia, não se nega a sinceridade de seu verdadeiro sonho – ousa nos revelar seu verdadeiro desejo, meu caro Numumba? Não consegue ainda, nem para si mesmo, mija-se só de lembrar, treme de medo há dias, como que acometido pelo presságio de que algo horrível está para acontecer. Gostaria de pedir piedade aos espíritos, mas não é assim que funciona; eles apenas observam, e interferem apenas quando lhes convêm.

À noite, hora em que cazumbis se erguem para assombrar e lamentar sob o olhar atento de Kakueje, a Pálida, cuja fosforescência leitosa do alto dos céus trevosos coalha campos e matas, e a Munda Central, em cujo pé nossa aldeia se localiza, mais parece um pico fantasma por onde se esgueiram névoas doentias que ondulam brancuras frias; pessoas comuns se recolhiam em suas cubatas, animais se escondiam em suas tocas, plantas permaneciam onde estavam por não terem opção, espíritos perambulavam como queriam – esses nunca dormem. Em nenhuma hipótese.

Papai e mamãe voltam a desmaiar de sono e Numumba, aproveita para escapar, ir se alimentar; percorre rápido as ruas escuras da aldeia, nada se movia, pelo menos nada pertencente ao mundo visível; poderia até se assustar aqui e ali com os secos barulhos da noite, mas o sonho/pesadelo já lhe tinha exaurido todas as forças, de forma que não sobrava mais nenhuma para sentir medo; dirigiu-se célere ao pátio de velho Nanga, o Contador de Estórias, Nolom já estava lá, não conseguiu dormir, colega?, perguntou baixinho Nolom, é, o de sempre, papai e mamãe berrando no meio da madrugada, respondeu Numumba, é, pelo menos você têm pais para te lembrarem que você existe, disse Nolom, Numumba se calou, envergonhado, voltaram-se para velho Nanga, sentado, e então se batiam então palmas, pedia-se permissão, ó ancestrais, concedam-me licença para absorver seus saberes e segredos, rolava-se a barriga na terra em respeito ao mais velho, velho Nanga enchia a cara velha com maruvo fresco, cambaleava e vomitava, e então começava.

Era uma vez um tempo anterior a todos os outros tempos; um tempo de sonhos e mistérios, além de todas as memórias cinzentas; as florestas cintilavam, árvores caminhavam, animais falavam, espíritos perambulavam abertamente à luz do Sol, uma vez que não havia a Barreira – os Caminhos para o Sonho estavam abertos. Por toda parte, esparramava-se o cheiro translúcido da noite azul, enquanto diversas criatividades fluíam abundantes como cristais puros de estrelas brilhantes; os espíritos se inebriavam dessas criatividades e copulavam bêbados uns com os outros até fornicarem a Vagina da Existência; e a realidade gozava trovoadas, nasciam jovens raios, jovens chuvas, montanhas flutuantes, desertos aberrantes, selvas ambulantes. E os espíritos copularam também com criaturas mortais, dando origens a linhagens inteiras de mestiços meio carne, meio espírito: seres lendários feitos de sonho, avatares brilhantes que tocavam a realidade e alcançavam as estrelas, ânsias soluçantes de desejos infinitos, que se multiplicaram e se espalharam pelo mundo como ventos velozes de verão.

Fascinante…!, Espetacular…!, Os Dias Antigos deviam ser incríveis!, Espíritos e humanos lado a lado, imagine só!, Já estou imaginando!, Estou vendo!, É fantástico, etc., exclamavam tão baixo quanto podiam, Numumba e Nolom, muito dignos em suas expressões aparvalhadas.

A despeito de todos os afazeres e obrigações e cobranças, todos os dias alimentamo-nos de ficção – para nos lembrarmos de que ainda estamos vivos, para conhecer melhor nós mesmos; pessoas como Numumba e Nolom precisam das estórias mais do que comer ou respirar. Os dois amigos sempre iam para o njango de velho Nanga, ilustre membro do conselho de anciãos; Numumba saboreava aqueles contos como se fossem finos doces dourados de mel perfumado; saltitavam ensandecidas as visões de lagos encantados, árvores falantes e serpentes aladas que cuspiam fogo. Numumba, o Herói, desafiava as poderosas rainhas-feiticeiras do Império Kalumba, se aventurava no Fosso das Almas para conseguir a Lança das Dimensões, como seria uma conversa com Namutu, o Primeiro Homem, cuja iluminação e poder ultrapassavam a compreensão meramente humana? Talvez, quem sabe, descobrir os nomes secretos das Cinco Rainhas-Serpentes, ou ainda enfrentar alguma das horripilantes Abominações Ancestrais…

Dia desses, estava o velho Nanga contando sobre o grande caçador Nlunga Ua Tembo – que matara cem omakalulas com apenas uma lança – quando notou que Numumba nervosamente crispava os lábios, o que há?, Menino, eu conheço esse chiste, vamos, fale, ah, perdão, não é nada, fala logo garoto! Está bem: n-nas estórias, todos exaltam, éramos reis de grande poder, sabedoria, vastos territórios, etc. e tal. Mas agora nossa linhagem não passa de aldeias esparsas controladas por uns sobas vaidosos mais preocupados com umas mesquinharias babacas e não realizam nada de bom! Nada! Ficam só se matando como se fossem uns idiotas! Por quê?

– Numumba! – exclamou Nolom.

– Perdão! Falei o que não devia, perdão, perdão! Não me mate, por favor!

– Recomponha-se, garoto! – ordenou velho Nanga. – Não farei nada a você. Disse a verdade.

– O quê?

– Somos a tribo Nangana, da linhagem de Namutu, o Iluminado, que por sua vez descende diretamente de Grande Mãe Serpente, Criadora da Terra e do Céu. Somos os sábios de nossa espécie. A capital de nosso reino era a Munda Central, em cujo ápice ainda repousa o Trono do Céu. Somos o que somos.

Numumba e Nolom se entreolharam, abriram a boca, mas desistiram; era mais fácil olhar para o chão. Os lábios de Numumba começaram a crispar de novo, enquanto Nolom piscava sem ritmo. Velho Nanga permanecia imóvel e a fogueira crepitava cheia de desdém.

– Mas vocês podem… – começou velho Nanga.

– Podemos…? – disseram juntos os dois moleques.

– Nada. – disse velho Nanga. – Chega, está tarde, vão para suas cubatas.

Respeitosamente cumprimentaram o ancião e saíram sem entender porra nenhuma; arriscaram uma olhadela para as estrelas enquanto suas cabecinhas centrifugavam suas imaginações particulares. Despediram-se um do outro sem dizer nada e recolheram-se até suas casas, rumo a mais um sono inquieto, mais uma noite em claro de auto-lamentações deploráveis – pois não há ninguém para segurar sua mão quando estamos sozinhos no quarto escuro da alma, certo?

Já velho Nanga permanecia diante da fogueira. Sentou-se na pedra. Disse para alguém que aparentemente não estava ali:

– Vocês poderiam sonhar muito mais do que imaginam se fossem capazes de encarar a si mesmos e parassem de se refugiar em suas imaginações limitantes. Como a maioria das pessoas fazem.

– Sim, eles podem sonhar muito mais – respondeu alguém que aparentemente não estava ali. – E vão fazê-lo, assim que descobrirem o que realmente são. Mas te intrometer está muito além de tua alçada, velho estúpido; apenas observa e relata os acontecimentos para as futuras gerações. Não te metas com os desígnios estabelecidos pelos espíritos!

Velho Nanga se recolheu à sua cubata para encarar seus próprios sonhos sinistros.

Fábio Cabral, especial para o Ao Sugo

Imagem: Moonlight, por ~Strange-Deja-Vu, DeviantArt

Você perdeu a entrada triunfal do nosso heroi Numumba? Atualize-se imediatamente lendo o primeiro conto de Fábio Cabral para o Ao Sugo, Numumba, O Heroi. Não perca ainda Numumba – Celebração aos Bons Espíritos

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