Numumba, o Herói
Abra os olhos, agora! Corre-corre, o monstro vai fugir! Numumba, o herói, parte em disparada pela selva, olhos brilhantes, lança em punho, persegue o horrendo moru-ngou, escapando por entre as árvores, saltando veloz por entre os galhos, corre-corre, a cauda farpada do monstro disparando saraivadas de espinhos envenenados, mas Numumba, o grande herói, desvia de todos com imensa facilidade, tamanha sua rapidez e agilidade; corre-corre, o moru-ngou voador ultrapassando o teto de folhas, para atingir o céu sem nuvens, só que Numumba realiza um salto tão veloz e formidável e espetacular que, quando a criatura se dá conta, o poderoso herói já está sob sua cabeça, pronto para desferir o golpe derradeiro…!
Meu nome é Numumba e eu sou um herói. Na tradição de minha terra sou chamado de chibinda, “aquele que caça com magias” – um mestre caçador, especialista em artes mágicas, armas enfeitiçadas e, feitos extraordinários. Os chibindas são os maiores campeões da tribo Nangana e eu sou um deles.
Às vezes, penso que perseguimos o heroísmo para escaparmos das insignificâncias inerentes às almas de todos nós.
Minutos antes de caçar o moru-ngou, estava eu lá em cima, no ponto mais alto de nossas terras, a Munda Central; abri os olhos para contemplar meu mundo, muito mais vasto do que sou capaz de enxergar – e eu enxergo bem longe, para além dos rios ondulantes, das selvas verdejantes, planícies fervilhantes e colinas flutuantes; enxergo as grandes manadas e as orgulhosas tribos, as caças e os caçadores, as selvagerias e as paixões, todas se confundindo no entrelaço de mútuas dependências e severas divergências; enxergo até a ação constante dos seres invisíveis que sustentam as estruturas físicas e oníricas de nossa terra.
Todos nós sonhamos; dessa forma, alimentamos e somos alimentados pelos espíritos.
Meu sonho sempre começa e termina na Munda Central, de onde vejo tudo.
E vi o moru-ngou comedor de gente descer como uma ave de rapina para atacar Namba, minha aldeia natal; mas a velocidade de Numumba, o herói, é a maior que existe nesta terra – em segundos, eu já estava no njando da aldeia Namba, sob olhar espantado de todos, meninas boquiabertas, como ele faz isso?, como se desloca tão rápido?, meus olhos não acompanham!, são artes mágicas, ele é um chibinda, chibinda!, sou grato pelos elogios, mas não era hora, pois o moru-ngou, espírito maligno em forma de ave horrenda, estava vindo!; desloquei-me novamente em alta velocidade e, no instante seguinte, já estava em pleno ar, a poucos metros acima da criatura, que acertei com minha lança; faíscas brilharam quando a ponta metálica atingiu o tronco do monstro – ele desviara a cabeça no último minuto e assim evitara o golpe fatal; num golpe rápido, uma de suas asas farpadas quase me atingiu, escapei com uma cambalhota no ar; pousei no chão de minha vila, enquanto o monstro se aproveitou para fugir.
Todavia, nem homem, nem bicho, nem monstro, nem espírito maligno é capaz de despistar Numumba, o Grande Caçador da tribo Nangana, maior herói desde os tempos de Nambala, o Lança Relampejante; com um pensamento, desloquei-me instantaneamente para o meio da selva, onde a criatura fugira em desespero; com um pensamento, desviei de todos seus espinhos e golpeei-lhe finalmente o pescoço imundo, decepando-o; com um pensamento, estava novamente de volta à aldeia Namba, erguendo triunfante a cabeça do moru-ngou horrendo.
Aplausos óbvios. Fácil demais.
E no meio da multidão surge Nilimba, minha amada, a mais bela da aldeia Namba; ela não se contém de emoção e me abraça forte, os lindos seios tocando meu peito forte, as genitálias roçando na minha perna – opa!, mas não há tempo para pensar, pois de súbito surge outro monstro, desta vez enorme, inchado e ainda mais horrível! Seguro minha lança e – epa!, Nilimba, o que você está fazendo com a mão aí?, ah, tá gostoso, continua, continua, ah, vai, vai!, mas o monstro gordo está gritando muito alto, acorda, acorda, acorda!…
– Abra os olhos agora, sua besta lerda! Acorda, que merda, acorda! Para com essa pouca-vergonha e vai trabalhar, moleque cretino dos infernos, vagabundo, tá atrasado, acorda infeliz!
– Sim mamãe, desculpe, já estou de pé, já tô indo já tô indo já tô indo!
Numumba amarrou a tanga na cintura e saiu correndo da cubata em que morava, o pênis ainda pingando, sua mãe grande e gorda gritando horrores no seu ouvido, moleque cretino, vagabundo miserável, corre, anda!
Fábio Cabral, especial para o Ao Sugo
Imagem: Kilimanjaro Speedpaint, por Mr. Conceptual, Deviant Art
A aventura do nosso heroi Numumba continua. Leia agora mesmo Banha de Elefante, outro conto de Fábio Cabral para o Ao Sugo.

ótimo:) hahahahahahahahahaha me diverti muito lendo isso.
21/04/2010 às 20:25
Demais, demais!
Sou fã, O Fábio sabe! ^_^
Muito sucesso pra ele, sempre!
Beijo enorme!
22/04/2010 às 08:45
Hahaha
Muito bom!!
25/06/2010 às 16:58