Metropolis – メトロポリス
Chocado. Atordoado. Estarrecido, pasmo, é pouco. Assisti há pouco e com um atraso vergonhoso à animação japonesa Metropolis (メトロポリス) de 2001, baseado na obra de Osamu Tezuka que já contava, mesmo tendo sido escrito há mais de 50 anos, uma visão futurista da humanidade. O fã de ficção científica que adorou Blade Runner por sua visão extremamente destrutiva da sociedade do futuro ou mesmo o fã de animação (e nesta categoria incluo a produzida nos mais diversos países, desde “As Bicicletas de Belleville”, francês, até o próprio Metropolis aqui) com certeza já viu Metropolis, caso contrário, está perdendo tempo, meu filho.
Produzido pelo Madhouse Studios em parceria com a Tezuka Productions, Metropolis com certeza entra para o ról das melhores animações que já vi, tanto no que concerne ao seu enredo denso e bastante emblemático até mesmo como sua qualidade visual, reunindo muito sabiamente a animação tradicional 2D com animação gerada em computador. A história toda se passa na próspera cidade industrial Metropolis no nosso futuro, cujos avanços tecnológicos introduziram robôs nos trabalhos penosos humanos (como o tratamento de esgotos, policiamento, etc) ao mesmo tempo que insere na sociedade disrupções estruturais graves. Com a entrada destes robôs ocupando o trabalho de várias pessoas, aparece a pobreza, o fortalecimento da desigualdade social e o surgimento de um submundo onde pessoas pobres e sem chances de ascensão vivem não à margem, mas literalmente abaixo dos demais (a coisa funciona mais ou menos assim: além da verticalização “para cima” da cidade com a construção de inúmeros arranha-céus, em Metropolis temos a verticalização “para baixo” da cidade, estando o subsolo destinado às “castas” e respectivamente as suas tarefas “impuras”). Do lado de cima a coisa não parece tampouco melhor: os ricos se corrompem com o poder, a humanidade se torna destrutiva, ocultando por trás da prosperidade tecnológica uma perversidade de espírito.
Neste mundo futurístico bastante problemático o presidente Boon e o prefeito Ryon governam a cidade oficialmente, enquanto Duke Red, opulento político, controla a todos manipulando cientistas, o Exército e demais habitantes com o auxílio de sua organização paramilitar “Marduk”. Logo no início do filme é possível ver Duke Red financiando abertamente a construção do Zigurate, uma imensa construção high tech capaz de, ao irradiar o Sol com uma grande coluna de energia, forçar tempestades solares e incitar grandes pulsos eletromagnéticos capazes de danificar os aparelhos elétricos da Terra (o que incapacitaria rapidamente qualquer vantagem tecnológica-militar de qualquer país vizinho e, obviamente, se tornando uma incrível peça de barganha para que Duke Red suba mais ainda ao poder). Para controlar o Zigurate Duke Red contrata o Dr. Laughton, um cientista especialista em robótica e procurado em vários lugares por conduzir experimentos ilegais para criar Tima, o robô mais sofisticado de todos os tempos. O conflito se inicia logo de cara quando o filho adotivo de Duke Red, o temível Rock e já corrompido por demais pela vivência nesse mundo, age em busca da destruição de Tima, acreditando ser inadmissível o controle e o poder de Metropolis por um robô e não por um humano.
Não preciso me alongar sobre o enredo (afinal, você que é esperto vai procurar isso o mais rápido possível na vídeo-locadora) para podermos identificar aqui vários elementos que, mesmo pensados há 50 anos atrás por Tezuka, são objetos de polêmica nas nossas próprias rodas sociais: é cada vez mais fácil ligar a TV em qualquer telejornal para podermos observar uma série de entraves ocorrendo simultaneamente em todo o mundo cuja discussão envolve o avanço desenfreado da tecnologia – não só tecnologias de inteligência artificial e robótica como também as reprodutivas, células tronco, clonagem, transgênicos, etc – sem os devidos questionamentos éticos não só quanto a própria humanidade como mesmo a sua relação com o próprio meio ambiente e ao nosso planeta em si.
Problema que já é apontado pela Ficção Científica há décadas e também é tema de profunda reflexão de inúmeros intelectuais das Humanidades, ao mesmo tempo que gozamos do progresso das ciências (e, permitam-me, deixamos isso cada vez mais entrar em nossas casas ao supervalorizar tudo quanto é descoberta científica sem o menor bom senso ou desconfiança, como assim cada vez se faz mais ao decorarmos as faixas calóricas dos alimentos, permitirmos a intrusão de tudo quanto é tipo de irradiações eletromagnéticas provindas de celular, televisão, rádio e tudo mais) estamos cada vez mais ultrapassando a tênue linha que separa os benefícios do progresso e da ciência dos verdadeiros malefícios disso tudo. Já disse aqui uma vez em outra oportunidade em relação ao livro Do Androids Dream of Electric Sheep de Philip K. Dick (o livro inspirador de Blade Runner) em que temos uma impressão horrível de uma Terra quase que pós-apocalíptica: assolada pela radiação, os habitantes daqui que não migraram em tempo para as colônias humanas em outros planetas são forçados a usar várias proteções de chumbo para se protegerem, já sabendo no entanto da diminuição de sua estimativa de vida…
Nas ciências humanas já encaramos isso como o paradoxo da tecnologia e do progresso. Quando mais pensamos que avançamos sem a reflexão mínima do caminho que estamos traçando, mais nos prendemos numa espécie de armadilha do próprio pensamento cientificista. Exemplo bastante pertinente é quanto ao aumento do aquecimento global, derretimento das calotas polares e aumento do buraco da camada de ozônio graças ao nosso ímpeto progressista: apesar de ser impossível andar de carro em São Paulo sem perder a paciência, a cada dia se vende mais carros, mais acreditamos na sua indispensabilidade, indispensabilidade de carros que se modernizam a todo momento e que “precisam” ser subseqüentemente substituídos na mesma velocidade. Outro exemplo que não posso deixar de dizer é quando vi uma vez numa destas revistas que falam de dietas e bem-estar de saúde matérias conflitantes sobre o coitado do ovo (ou qualquer outro alimento que caia nas graças, ou melhor, nas desgraças da comunidade científica) que não se decide se causa ou não câncer nas pessoas devido às descobertas científicas que ocorrem todos os dias.
Metropolis capta com sabedoria tal paradoxo e nos oferece uma maneira – bastante crítica e ok, até mesmo cruel – de encararmos não a humanidade (falando dela como se fosse algo bonito, abstrato e distante), mas a nós mesmos e nossos comportamentos impensados. O próprio nome da torre capaz de destruir civilizações, o Zigurate, remete claramente ao próprio zigurate babilônico, a Torre de Babel: ao querer controlar a natureza e bancar Deus o homem caiu em ruínas… Deus ex machina, chamem da maneira que quiser, mas Duke Red e todas as pessoas associadas a ele que pensam na supremacia e no controle do planeta e do próprio Sol estão cada vez mais presos a esse caminho auto-destrutivo sem saída.
O diretor Rintaro havia pedido ao próprio Tezuka a autorização para fazer a animação de sua obra, veementemente negada a princípio. De acordo com Tezuka, apesar de toda a densidade e solidez de seu pensamento que acabou se mostrando em muitos aspectos enquanto profético, ainda estava inacabado. Apenas após muitos anos e com o auxílio do renomado escritor/diretor de animes Katsuhiro Otomo que Metropolis saiu do papel e chegou às telas nesta obra memorável. Fiquei bastante surpreso ao ter que encarar logo de início uma trilha sonora em jazz à la New Orleans e, o mais curioso, um excesso de letreiros e banners escritos em inglês na cidade (o contrário do que vemos por exemplo em Blade Runner e Neuromancer, com letreiros em japonês), além de mostrar com bastante eficácia as glórias do pernicioso progresso com várias pessoas comemorando nas ruas sem saber exatamente o que estão festejando (é, vejam vocês mesmos o filme: logo no início quando o Zigurate é inaugurado, as pessoas estão em franca celebração nas ruas mas sem saber o que é o próprio Zigurate… paradigmático, não? Qualquer semelhança não é mera coincidência) em contraposição aos malefícios deste mesmo progresso com a segregação de pessoas que, por morarem no Submundo/Subsolo, são invisíveis por não possuírem um lugar nesta nova ordem social (é, isso é fácil: para mostrar que uma cidade não tem mendigos e descontentes é simples, é só escondê-los, coisa que a gente aprende nos jornais diários).
Outra questão muito bem explorada no filme é o contraponto dado pelos robôs em meio aos humanos, tema muito significativo e que permeia todo o enredo do começo ao fim: não quero repetir aqui de novo algo que eu mesmo já disse em outro artigo, mas vocês realmente nunca pensaram que apesar de ser uma visão triste da humanidade no futuro, ela nos permite repensarmos as nossas próprias vidas e, quem sabe, virarmos a mesa contra este fatídico destino? Estas obras artísticas como Metropolis, Blade Runner e Neuromancer, todas de teor profundamente crítico nos oferecem a capacidade de uma árdua reflexão (árdua por ser um tema que muitas pessoas acham doloroso discutir e plenamente levar a sério) sobre o nosso papel no futuro e no meio de tantas máquinas: será que não é em meio aos tão falados robôs inteligentes que nós poderemos nos perguntar sobre qual é realmente o estatuto da humanidade, se é que ela/ele existe? É nesse ponto que podemos encarar estas obras – e Metropolis em específico – como uma produção realmente comovente e tocante – no sentido literal do termo: no meio dessa algazarra toda precisamos mesmo parar e pensar, alguém ou alguma coisa precisa nos dar um cutucão, nos comover, nos tocar.
Como disseram Rintaro e Otomo, apesar da diferente infra-estrutura dos estúdios de animação japoneses em relação aos norte-americanos, a animação japonesa não deixa nada a desejar, sendo realmente bastante feliz o resultado final de Metropolis. Pretendo retornar muito em breve para discutir outro autor de animação japonês que freqüentemente adora tocar nas mesmas feridas: Hayao Miyazaki em uma de suas obras-primas, Nausicäa 風の谷のナウシカ. No mais é só pessoal, bons sonhos.
Victor Hugo
Além de alhos com cabeça, pés e dentes nós do Ao Sugo adoramos discutir coisas sérias. Se você quer saber mais sobre esta temática, visite nossos artigos sobre o mundo Cyberpunk.

Ainda não assisti Metropolis, mas ao ver a foto que você colocou aqui no ao sugo você nem precisa ter falado qual era o autor. O traço é inconfundível!! Traço que me incomodou por anos, mas hoje consigo admirar toda a simplicidade e a beleza que Osamu Tezuka deixa em cada linha!!
Como não assisti, AINDA, ao anime, por isso me limito a falar que quem não conhece pelo menos alguns outros trabalhos desse autor deveria dar uma olhada. Osamu Tezuka é um marco na animação e nos quadrinhos japoneses. O manga que lemos hoje, e que (pra nossa sorte) chega aos montes, atualmente, no Brasil, não seriam os mesmo sem Osamu Tezuka!! Considerado o pai do manga moderno, esse gênio da animação merece mais que um parabéns pelas suas produções, ele merece um obrigado, pois sem ele muitos recursos hoje tão comuns nas produções japonesas poderiam não existir!
Para quem quer conhecer um pouco mais da vida e obra do autor, recomendo “Osamu Tezuka: uma Biografia Manga”, lançado pela editora Conrad! Aliás, a Conrad lança vários trabalhos desse autor, em ótima qualidade de diagramação. Vale a pena dar uma olhada.
Para quem irá assistir ao Metropolis como eu, boa viagem ao mundo Tezuka, e pra quem irá conhecer um pouco mais sobre o autor, acredite, será um encontro inesquecível!!
18/06/2008 às 09:27
tá dominado! Acabo de ler o artigo!
04/02/2009 às 20:01
Gostei do artigo! Vou alugar Metrópolis qualquer dia desses !!!Valeu pela dica!!!
Pois é meu caro a humanidade está perdida!!!!
04/10/2009 às 00:14
Belo review, tocou em pontos importantes do anime. Adiciono também que Osamu Tezuka aparentemente chegou a ver alguma coisa do famoso filme “Metropolis” de 1927 (http://www.imdb.com/title/tt0017136/) e realmente eu percebi algumas semelhanças, mesmo que sejam apenas coincidências.
O Metrópolis não é original no tema, mas sim na forma como o aborda, e a trilha sonora é algo realmente bem sacado! A última música fecha a poesia visual com maestria, sem dúvidas!
O ser humano é engraçado, tão obcecado por conhecimento que destrói a si mesmo atrás de algo dele. E, pior, leva o planeta com ele.
Aguardo seu artigo sobre Nausicaä, que é um dos trabalhos mais lindos do Miyazaki.
Parabéns!
18/10/2009 às 23:58
Realmente, um excelente artigo. Devo dizer que tudo que você falou não passa da mais pura verdade. Eu assisti metrópolis e, inclusive, comprei o dvd desse filme maravilhoso. Gostaria de acrescentar que um dos pontos muito abordados no filme é a questão do robô na sociedade, que é considerado como um servo sem nenhum poder aquisitivo.
Quando chegar o dia em que as I.As realmente estiverem presentes na vida dos seres humanos, será muito necessário refletirmos sobre como devemos tratar esses seres que, apesar de não serem orgânicos, se chegarem a imitar tão perfeitamente o ser humano, vão precisar ter direitos, assim como nós e serem tratados com o seu devido respeito e consideração.
Devemos tirar como lição desse filme a moral de que não podemos nos deixar corromper pela tecnologia e pelo poder. Devemos usar isso em prol do futuro da humanidade, mas preservando e respeitando o nosso planeta de que tanto precisamos para sobreviver.
26/12/2009 às 22:18